O Centro que a Igreja Nunca Pode Perder




Colossenses 1.15 Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. 16Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. 17Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste. 18Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para ter a primazia em todas as coisas. 19Porque Deus achou por bem que, nele, residisse toda a plenitude 20e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus

Durante a Reforma, e mesmo antes dela, a verdadeira igreja corria o risco — em alguns casos, um risco concreto — de abandonar a Cristo e o seu evangelho para abraçar técnicas, métodos e maneirismos humanos. A igreja medieval ensinou que a salvação dos crentes estava sujeita a diversas condicionantes, como as indulgências, a confissão auricular, a participação na missa e nos sacramentos, além da intercessão dos santos e de Maria.

Quando olhamos com atenção para o passado, percebemos que não há novidade alguma. Paulo e os demais apóstolos enfrentaram, em seus dias, as mesmas dificuldades, ainda que sob outras abordagens e ênfases, enfrentando tentativas constantes de diminuir a suficiência escandalosa e gloriosa de Cristo na salvação.

Particularmente, a igreja de Colossos — cidade situada na região da Frígia, na província da Ásia, cuja capital era Éfeso — viu-se diante de homens que perverteram a mensagem do evangelho ao introduzir experiências místicas e carismáticas, a prescrição de rituais ascéticos e o sincretismo religioso (judaísmo místico, cultos de mistério e religião popular).

Mesmo na prisão, Paulo identificou a gravidade do problema e escreveu aos irmãos de Colossos a fim de fortalecer-lhes a fé e adverti-los sobre a necessidade de permanecerem firmes no ensino apostólico.

Atualmente, os verdadeiros crentes enfrentam dilemas semelhantes. Com o advento da internet e a invasão indiscriminada das inteligências artificiais, a igreja contemporânea volta a correr o risco de desfocar de Cristo para colocar no centro os métodos, a busca por líderes carismáticos, as agendas políticas, as promessas de prosperidade ou o pragmatismo religioso.

Ao olhar para a profundidade do texto de Colossenses 1.15-20, percebemos que o antídoto para todo desvio e distração continua sendo a contemplação da pessoa e da obra de nosso Senhor - A simplicidade gloriosa do lema reformado Solus Christus. Diante dessa verdade, como podemos nos guardar de sutilmente deslocar Cristo do centro da nossa vida e do nosso ministério?


Cristo, a supremacia do Deus Homem.

Logo no início da carta aos colossenses, após a corriqueira saudação, ações de graça e oração, Paulo insere aqui um hino de louvor que exalta a supremacia de Cristo. O apóstolo lembra que Cristo não é apenas mais uma figura entre os poderes espirituais, mas Aquele que está soberanamente acima de todos. Diversos estudiosos compreendem que os versículos 15 a 20 constituem um cântico cristão primitivo, citado e adaptado pelo apóstolo para fundamentar sua argumentação - de certa forma todo o restante da carta está fundamentada nesta introdução.

A primeira estrofe aclamava a Cristo como Deus, preexistente e Soberano sobre toda a criação. A segunda contempla a sua encarnação e a sua obra reconciliadora. O sacrifício de Cristo na cruz estende seus efeitos a todas as dimensões do cosmos — no céu e na terra. Em Cristo, os crentes de Colossos — e nós também — recebemos a plenitude dos benefícios da sua morte, alcançando uma salvação perfeita e completa.

Analisemos, portanto, cada parte deste trecho:

1 - Cristo divino 1.15-17

Colossenses 1.15 Ele é a imagem do Deus invisível...

Além de revelar a Deus, Jesus compartilha da própria identidade divina: Ele é a expressão exata de quem Deus é. Nele, a compreensão sobre o Deus invisível ganha clareza e vida. Cristo é a imagem suprema — e não apenas uma representação —, manifestando plenamente a natureza e o caráter do Pai.

1.15b ...o primogênito de toda a criação.

O apóstolo introduz uma metáfora a respeito da superioridade de Cristo. Ele não é o primeiro ser criado, mas o que possui a primazia e a autoridade sobre toda a criação.

Por isso, os crentes não precisam de visões complementares, novas revelações ou inovações sentimentalistas para conhecer a Deus em profundidade. O seu novo ser é continuamente renovado no conhecimento do Criador revelado nas Escrituras. Somente Cristo une os céus e a terra, tornando desnecessária qualquer mediação de seres intermediários entre Deus e a humanidade.

16Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.

Paulo aplica a Cristo aquilo que o Antigo Testamento atribui a Deus: Ele é o Criador.

Todas as formas de poderes espirituais, visíveis e invisíveis, experimentadas pela humanidade, dependem de Cristo e mantêm sua posição apenas sob sua soberania. Portanto, os crentes não precisam temer, reverenciar ou aplacar essas potestades (elas não precisam de oferendas), eles já estão em Cristo que os guarda e que governa todas as coisas.

17Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste.

O apóstolo recorda aos leitores que Cristo não apenas estava presente no princípio, quando tudo veio a existir por seu intermédio, mas também reina soberano sobre toda a criação. Ele é a chave que revela o propósito supremo do universo e de toda a obra divina — passada, presente e futura.

2 - Cristo homem 1.18-20

18Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja.

Essa expressão refere-se à supremacia de Cristo sobre a igreja. Ele é o governante supremo do universo e atua como o cabeça da igreja, direcionando-a, governando-a e concedendo-lhe vida e força. A igreja não existe para satisfazer a si mesma nem para assegurar a sua sobrevivência institucional, mas para cumprir os propósitos daquele que é a sua cabeça.

18b Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para ter a primazia em todas as coisas.

Ele foi o primeiro a ressuscitar dentre os mortos para nunca mais morrer, garantindo a ressurreição de todos os que crêem. A esperança dos eleitos não repousa em cenários políticos ou na expectativa de um mundo melhor; a promessa de Deus é a restauração plena e absoluta de todas as coisas, e a ressurreição de Cristo é a garantia definitiva dessa realidade.

19Porque Deus achou por bem que, nele, residisse toda a plenitude...

O apóstolo expressa a soberania e o mistério da vontade de Deus. Em toda a sua grandeza, Deus escolheu habitar exclusivamente em Cristo — e em ninguém ou nada além dele. Dessa forma, Cristo manifesta de maneira perfeita toda a glória de Deus. Estar em Cristo é estar em comunhão contínua com Deus. Assim, os que estão em Cristo desfrutam continuamente do frescor da presença renovadora e santificadora do Espírito Santo e descansam em sua vontade soberana.

20...e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

Tudo foi criado por meio de Cristo, mas a criação está caída e necessita de reconciliação com Deus. Essa obra foi alcançada somente por intermédio de Cristo, que assumiu a carne humana e suportou o sofrimento agonizante da cruz. Não se trata de salvação universal, pois os inimigos de Cristo foram vencidos; o clímax desse louvor poético revela que Deus transformou um instrumento de execução em um sacrifício expiatório pelo seu sangue, trazendo verdadeira vida e paz.

Lutero disse: “Jesus Cristo, nosso Senhor e Deus, deu sua vida por nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação. Ele é o único caminho; fora dele não há salvação, nem paz com Deus.”

Não existe possibilidade de salvação à parte daquele que morreu na cruz e, por meio do seu sacrifício, apaziguou a justa ira de Deus, trazendo paz e reconciliação. O apóstolo aponta para a exclusividade de Cristo na salvação: Jesus Cristo é o único e suficiente Salvador.


Aplicações

  1. Precisamos resgatar o maravilhamento e a adoração constante ao Cristo supremo e reconciliador, por meio de quem todas as coisas foram criadas e em quem habita toda a plenitude. John Piper observa que, diante do desânimo e do cansaço, não devemos apenas perguntar o que podemos fazer, mas o que provocou esse estado; afinal, grande parte da nossa frieza espiritual decorre da falta de contemplação e adoração a Cristo, a imagem do Deus invisível.

  2. Credos, confissões e catecismos são ferramentas preciosas de edificação, discipulado e adoração. Paulo utilizou um hino da igreja primitiva para advertir e edificar os crentes de Colossos. Nossos documentos de fé não podem ficar esquecidos ou ocupar um lugar empoeirado na prateleira.

  3. Reafirmar o Solus Christus é lembrar continuamente que nenhum artifício ou estratégia pode substituir o Senhor. Somente Cristo é suficiente para a salvação, edificação e condução do seu povo. Ao longo da história, a igreja frequentemente caiu na tentação de negociar a suficiência de Cristo por métodos humanos — algo que os reformadores combateram arduamente ao rejeitar a substituição do evangelho por relíquias e méritos religiosos.

    Como bem retrata a cena clássica do filme biográfico Lutero (2003), o embate sobre a centralidade de Cristo versus a dependência de rituais e artefatos pode ser visto no diálogo entre Martinho Lutero e seu mentor Johann von Staupitz:

    Staupitz: "Martin, o povo precisa dessas coisas. As relíquias, as peregrinações, os ossos dos santos... dão a eles um senso de proximidade com Deus, um conforto visível."

    Lutero: "Dão falsa segurança, meu pai! O povo está beijando ossos e pagando por indulgências enquanto esquece o Salvador vivo. Precisamos tirar tudo isso e apontar para a cruz."

    Staupitz: "Se você arrancar essas coisas, o que sobrará para o povo se agarrar?"

    Lutero: "Sobrará Cristo. E Cristo basta."


Conclusão

Em dias como os nossos, marcados pela proliferação desenfreada da tecnologia, pelo uso irrefletido de técnicas humanas e pela aceitação acrítica das ciências seculares — especialmente as ligadas à neurociência —, a igreja corre o risco de desviar o olhar do Cristo suficiente. Diante de tais desafios contemporâneos, os crentes são chamados a resgatar a contemplação singela e gloriosa de Cristo, ancorada nas Escrituras Sagradas e fielmente expressa pelos credos e confissões da igreja. Somente ao manter Cristo no centro de tudo — Aquele em quem habita toda a plenitude e por quem fomos reconciliados —, permaneceremos firmes e inabaláveis.


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