As exigências do Rei




Mateus 10.32 — Portanto, todo aquele que me confessar diante dos outros, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; 33mas aquele que me negar diante das pessoas, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus. 34 — Não pensem que eu vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. 35Pois vim causar divisão entre o homem e o seu pai; entre a filha e a sua mãe e entre a nora e a sua sogra. 36Assim, os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria casa. 37 — Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama o seu filho ou a sua filha mais do que a mim não é digno de mim; 38e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim. 39Quem acha a sua vida a perderá; e quem perde a vida por minha causa, esse a achará. 40 — Quem recebe vocês é a mim que recebe; e quem recebe a mim recebe aquele que me enviou. 41Quem recebe um profeta, no caráter de profeta, receberá a recompensa de profeta; quem recebe um justo, no caráter de justo, receberá a recompensa de justo. 42E quem der de beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade lhes digo que de modo nenhum perderá a sua recompensa. 11.1 Quando Jesus acabou de dar estas instruções a seus doze discípulos, saiu dali para ir ensinar e pregar nas cidades deles.


Introdução

O Rei encerra seu sermão missionário. Depois de comissionar os seus enviados com a sua própria autoridade, dando instruções precisas aos doze apóstolos, e preparando-os para as dificuldades inerentes à sua tarefa — ainda que oferecendo as devidas provisões, tanto físicas quanto espirituais, para o desenvolvimento do discipulado.

No encerramento do seu discurso, ele exige que seus discípulos apresentem algumas características peculiares. O Rei convoca seus seguidores para um compromisso de lealdade que vai exigir deles a confissão pública, consciente, voluntária e definitiva de fidelidade exclusiva com ele, ao custo de suas famílias e de suas próprias vidas. Esse compromisso não é uma contrapartida ou exigência de adesão; a lealdade dos seguidores é o reflexo do que o próprio Rei realizou. A maneira como eles respondem a bondade do Rei determina como eles serão tratados.

O argumento de Mateus é que o discípulo de Jesus apresenta um tipo de compromisso, lealdade e disposição que são específicas. Essa disposição não é o resultado de seus próprios esforços, mas parte visível e integrante de sua nova natureza admitida pelo próprio Rei “diante do Pai” e recompensada pela dádiva de Deus.

Diante de exigências tão radicais, estamos de fato dispostos a perder a nossa vida por amor ao Rei para, somente assim, encontrá-la? Estamos dispostos a renunciar ao controle de nossa existência e morrer para nós mesmos, a fim de viver verdadeiramente para o Rei?


As características do discipulado

1 - O rei exige confissão. 10.32-33

Mateus 10.32 — Portanto, todo aquele que me confessar diante dos outros, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; 33mas aquele que me negar diante das pessoas, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus.

Embora dirigido aos Doze (10.1-5), como boa parte da passagem, esse princípio serve para os seus discípulos em geral. Um critério necessário para ser discípulo de Jesus é a confissão pública dele (Rm 10.9). Isso varia de cristão para cristão em intensidade; mas quem rejeita consistentemente a Cristo é rejeitado por Cristo.

O Rei contrapõe duas atitudes: confessar ou negar. No contexto do Evangelho de Mateus, a confissão ou a negação de Cristo relaciona- se diretamente ao testemunho público do Rei e do seu Reino (Mt 10.14- 15). Os que confessam a Cristo ouvem as suas palavras e as praticam; por outro lado, quem o nega é justamente aquele que recusa praticar o seu ensino (Mt 7.24-27).

A passagem evidencia a realidade de que somente Cristo tem o poder de ser o intermediário dos crentes. O Rei pode confirmar ou negar pessoas diante do “Pai, que está nos céus.” Esse testemunho público dos discípulos é confirmado pela igreja. Ela reconhece as confissões de crentes fiéis e valida essa confissão na medida que administra os sacramentos do batismo e da ceia do Senhor (Mt 16.18 e 18.18).

Além disso, esse confessar ou negar não se compara a repetições de versículos como se fossem “palavras mágicas” com poder para operar milagres. Os crentes que confessam Cristo confiam que somente ele pode conduzir nossa existência como Deus soberano.

O Rei exige lealdade. 10.34-39

Mateus 10.34 — Não pensem que eu vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.

O Rei, novamente, utiliza uma linguagem dramática e trágica. As diversas tentativas de interpretar o texto não podem esconder o tom direto e catastrófico em que o rei se refere a sua própria vinda.

Na prática, ser um seguidor de Cristo é ser um insurgente contra o sistema de crenças e costumes que fundamentam a existência dos homens sem Deus.

Da mesma maneira que muitas pessoas da época de Jesus achavam que a vinda do Messias traria paz política e prosperidade material para eles, também, hoje muitos da igreja acham que a presença de Jesus trará um tipo de tranquilidade para elas. Não obstante, Jesus insistia que sua missão acarretava discórdia e divisão (v. 34).

35Pois vim causar divisão entre o homem e o seu pai; entre a filha e a sua mãe e entre a nora e a sua sogra. 36Assim, os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria casa.

O rei explica a sua afirmação anterior com um exemplo absolutamente escandaloso. Embora ele seja o Príncipe da paz, o mundo rejeitará tão violentamente a ele e seu reino que os homens e as mulheres se dividirão em relação a ele.

37 — Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama o seu filho ou a sua filha mais do que a mim não é digno de mim; 38e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim.

A reivindicação do Rei é absolutamente radical. O que Jesus exigiu estava reservado apenas para Deus. Em outras palavras, ele faz uma declaração direta da sua divindade. Somente Deus pode exigir tal nível de lealdade e compromisso.

Curiosamente, Jesus não exigiu o abandono de coisas óbvias. Ele não disse para deixar os vícios ou as coisas boas da vida. O Rei aponta para relacionamentos preciosos e legítimos. Amar pai e mãe, e amar filho e filha é uma ordem bíblica e a atitude esperada nestes vínculos. Todavia, se amamos essas pessoas mais do que amamos ao Rei não amamos essas pessoas de verdade. As pessoas devem amar, mas devem amar supremamente Jesus. Devemos seriamente cuidar para não transformar nossos amados em ídolos.

Atualmente, existe uma tentativa de enfraquecer o argumento de Jesus ao transformá-lo em algo abstrato. Se perguntarmos a qualquer cristão se ele ama seus familiares mais do que ama a Cristo? Certamente, sua resposta seria não. Porém, se mudarmos a pergunta para você seria capaz de trocar o culto de adoração a Cristo por um compromisso familiar? A resposta provavelmente seria diferente. Isso acontece porque, na mentalidade individualista, a família humana é mais importante do que Cristo e seu povo.

39Quem acha a sua vida a perderá; e quem perde a vida por minha causa, esse a achará.

Avançando no argumento, Jesus coloca a vida em perspectiva: a vida sem Cristo, simplesmente, não é vida. Por isso, a única forma de experimentá-la realmente é perdê-la por causa de Cristo.

Há um forte paradoxo aqui: quem perde a sua vida (psychê, alma) na abnegação do discipulado, a encontrará. Por outro lado, aqueles que encontram sua vida agora, vivendo para si mesmos e recusando-se a se submeter às exigências do discipulado cristão, acabarão por perdê- la.

Nas palavras de D. A. Carson: “Jesus exige a morte do ‘eu’... A dolorosa morte do 'eu'”.

Para lidar com o “eu” e com a disposição natural de autopreservação, o crente deve aplicar o princípio evangélico do esquecimento pessoal: não pensar mais de si mesmo, nem menos de si mesmo, mas simplesmente não pensar em si mesmo!

3 - Uma palavra de encorajamento. 10.40-42

40 — Quem recebe vocês é a mim que recebe; e quem recebe a mim recebe aquele que me enviou.

O Rei deixa uma promessa que serve, ao mesmo tempo, para os discípulos e para quem os recebe. Os que recepcionam os discípulos recepcionam o próprio Rei. Além disso, os seguidores de Jesus podem confiar que serão recebidos: em meio às perseguições, alguns acolherão sua mensagem. Por outro lado, somos advertidos, indiretamente, sobre os perigos de se rejeitar os mensageiros do Rei.

41Quem recebe um profeta, no caráter de profeta, receberá a recompensa de profeta; quem recebe um justo, no caráter de justo, receberá a recompensa de justo. 42E quem der de beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade lhes digo que de modo nenhum perderá a sua recompensa.

Novamente, ele recorre aos exemplos do Antigo Testamento para mostrar que Deus está envolvido pessoalmente com seus enviados. Mesmo algo insignificante como um copo de água fria não ficará sem recompensa. Note, porém, que a recompensa não é o pagamento pelo serviço prestado, a recompensa é um dom gratuito concedido aos que também receberam tudo gratuitamente. No contexto, aqueles que recebem bem os mensageiros enviados pelo Rei, receberam a recompensa do Rei, que indiscutivelmente, são as dádivas do Evangelho.

Spurgeon poeticamente disse: “Pode haver um mar de amor ardente em um copo de água fria”. Os discípulos são aqueles que partilham até mesmo um copo de água fria uns com os outros. Esse amor cuidadoso e gracioso é a marca de igrejas que carregam o emblema do Rei dos reis.

Um ponto importante, é destacar que os discípulos devem ser bem recebidos enquanto carregam as marcas dos enviados do Rei. Os falsos seguidores precisam ser rejeitados e faríamos bem em ser cuidadosos para não cometer o equívoco da ingenuidade.

11.1 Quando Jesus acabou de dar estas instruções a seus doze discípulos, saiu dali para ir ensinar e pregar nas cidades deles.

O Rei não ordena o que não faz. O que ele mandou seus enviados fazer ele mesmo praticou. A liderança deve ser marcada, entre outras coisas, pelo exemplo.

Um filho vai admirar muito mais seu pai por ser um homem da oração, da Bíblia e da igreja do que somente um servo do dinheiro, do status e da glória humana. Ovelhas seguiram pastores que mostram uma vida piedosa e santa em vez de números, resultados e performance. Trabalhadores admiraram seus patrões por sua justiça e verdade, muito mais do que sua energia, sagacidade e desenvoltura.


Definição de discipulado

Mateus 10.39 Quem acha a sua vida a perderá; e quem perde a vida por minha causa, esse a achará.

O discipulado é o relacionamento de Cristo com o crente, operado pelo Espírito Santo. Consiste em uma submissão contínua ao ensino de Jesus, mediada pelas Escrituras, visando o crescimento na santificação e a conformidade progressiva à imagem de Jesus, realizada dentro da comunhão da Igreja e manifestada no serviço amoroso ao próximo.

O discípulo é alguém que foi chamado pelo Rei para habitar em seu palácio pessoal e desfrutar de sua presença, cuidado e proteção. O discípulo tem o privilégio de presenciar o Rei sendo adorado, bem como, seu amor, serviço, perdão e compaixão. Dessa forma, ele pode refletir a mesma atitude em sua vida, convidando outros a seguir o Rei e imitar sua vida.

Jonas Madureira sintetizou: “Em geral, no contexto cristão, a palavra "discipulado" tem dois sentidos. Um refere-se ao ato de seguir Jesus (imitar Cristo); o outro, ao ato de ajudar alguém a seguir Jesus (ajudar outros na imitação de Cristo).”

Bonhoeffer acrescenta: “O chamado ao discipulado não revela, aqui, nenhum outro significado além do próprio Jesus Cristo, o compromisso e a comunhão com ele. No entanto, a existência do discípulo não consiste na adoração entusiástica de um bom mestre, mas, isto sim, na obediência ao Filho de Deus.”


Desfrutando do discipulado

Mateus 10.38 e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim.

As ênfases teológicas de Mateus:

O Rei

● Discípulo assume compromisso e lealdade exclusiva com o Rei. O discípulo desfruta da lealdade e compromisso do Rei e responde com o mesmo nível de lealdade e compromisso.

Mudança radical de vida. O discípulo não tem agenda própria. Suas convicções/decisões são moldadas pela Palavra. A maneira em que gasta dinheiro, busca lazer, trabalha, estuda entre outras coisas, são influenciadas pelas ordens do Rei.

Discípulo faz discípulos. Mark Dever afirma que “se não

trabalhamos para fazer discípulos, talvez, nem discípulos somos”.

O reino

A igreja é a comunidade dos discípulos. Todos os membros são seguidores do mesmo mestre. Não existe hierarquia, preferência ou proeminência entre os discípulos.

O povo de Deus está continuamente na presença de Deus. Estamos, todos, em Cristo, diante de Deus - devemos viver com temor e tremor.

O reino de Deus pertence aos que perdem a vida por causa do Rei. No reino, o veredicto é dado antes da performance: Aqueles que perdem a vida (veredicto), desfrutam da vida (performance).


Conclusão

Responder a exigências tão radicais é impossível por nossas próprias forças. No entanto, é o próprio Rei quem opera em nós a lealdade que ele mesmo exige. Perder a vida por sua causa não é uma perda, mas a única maneira de encontrá-la de verdade. Ao renunciarmos ao controle e morrermos para nós mesmos, descobrimos que não fomos abandonados à nossa própria fraqueza, mas unidos àquele que deu a sua vida por nós. Diante do chamado, a nossa única resposta segura é render-se à sua graça, tomar a cruz e, finalmente, viver.


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