O Rei e o coração


 



19 — Não acumulem tesouros sobre a terra, onde as traças e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; 20mas ajuntem tesouros no céu, onde as traças e a ferrugem não corroem, e onde ladrões não escavam, nem roubam. 21Porque, onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração. 22 — Os olhos são a lâmpada do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz; 23se, porém, os seus olhos forem maus, todo o seu corpo estará em trevas. Portanto, se a luz que existe em você são trevas, que grandes trevas serão! 24 — Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.

Tendo corrigido a vida de devoção dos seus súditos – como eles devem tratar o serviço, a oração e o jejum - agora é momento de tratar da segunda parte do capítulo 6 de Mateus, onde Jesus aborda as questões da vida do cristão no mundo com todos os sentimentos, preocupações, tensões e dificuldades.

Como um habilidoso artista, o Rei está moldando uma belíssima escultura. O seu discurso avança para o ápice, e nesse ponto, ele trata das motivações centrais do coração. Antes de abordar o problema sensível e universalmente conhecido da ansiedade o rei aponta: ”21Porque, onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração.”

Spurgeon diz: “Os nossos pensamentos naturalmente se inclinarão para onde colocarmos os nossos tesouros. Seria sábio deixar tudo o que temos funcionar como ímãs que nos levem à direção certa.”

O argumento de Jesus é que a divisão de lealdade denuncia profundo compromisso com outros senhores, e não compromisso com o discipulado. A Bíblia descreve essa atitude como idolatria.

O coração é o centro essencial do indivíduo e qualquer coisa na qual buscamos satisfazer o coração mais do que em Cristo se torna, por definição, nosso deus, que adoramos, servimos e buscamos de todo coração – um ídolo. Sobre isso que o Rei está advertindo seus seguidores: a idolatria.

Tim Keller afirma: “Um sinal claro de idolatria é a ansiedade desordenada, a raiva ou o desapontamento quando nossos ídolos são ameaçados. Assim, caso percamos uma coisa boa, ficamos tristes, mas, se perdemos um ídolo, ficamos devastados.”

Dessa forma, quais são os meios para reconhecer e, sobretudo, lidar com a idolatria enraizada em nosso coração?


Os valores do coração

O rei utilizou três analogias (sempre apontando e corrigindo) relacionadas a lealdade para descrever os valores do reino:

1. Tesouro - 6.19-21

19 — Não acumulem tesouros sobre a terra, onde as traças e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam;

O rei chamou seus seguidores para uma parada decisiva (semelhante ao v. 25: “Por isso, digo a vocês: não se preocupem com a sua vida”). O amor pela riqueza é o grande mal que pede advertência permanente. Contudo, como acontece com muitas das advertências de Jesus neste sermão, seria temerário absolutizar essa afirmação de que a riqueza em si mesma se torna um mal - outras declarações encorajam-nos a usufruir das coisas boas que o Criador nos concedeu. O Rei está preocupado com o egoísmo observado nos valores errôneos.

20mas ajuntem tesouros no céu, onde as traças e a ferrugem não corroem, e onde ladrões não escavam, nem roubam. 21Porque, onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração.

Seus discípulos não devem acumular tesouros para si mesmos, eles devem se perguntar honestamente onde está seu coração. Por contraste, os tesouros do céu estão para sempre isentos da deterioração e dos roubos. O ponto é que as coisas mais altamente entesouradas ocupam o "coração", o centro da personalidade, abraçando mente, emoções e vontade; e, assim, o tesouro mais acalentado de forma sutil, mas infalível, controla toda a direção e valores da pessoa. De modo oposto, os que estabelecem sua mente nas coisas do alto, determinando levar a vida sob as normas do reino, descobrem, por fim, o valor real das coisas criadas

2. Luz - 6.22-23

22 — Os olhos são a lâmpada do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz; 23se, porém, os seus olhos forem maus, todo o seu corpo estará em trevas. Portanto, se a luz que existe em você são trevas, que grandes trevas serão!

O sentido da fala de Jesus é de que através dos olhos, o corpo encontra seu caminho. O olho deixa entrar a luz, e, assim, o corpo todo é iluminado. Mas olhos maus não deixam entrar a luz, e o corpo fica nas trevas.

Essa descrição totalmente honesta tem implicações metafóricas. O "olho" pode equivaler ao "coração". O coração voltado para Deus para guardar seus mandamentos equivale ao olho fixo na lei de Deus. De forma semelhante, Jesus move do "coração" (v. 21) para os “olhos" (vv. 22,23). Além disso, o texto move-se entre a descrição física e a metáfora. No sentido figurado, o corpo simboliza a pessoa em sua totalidade, imersa em escuridão moral. Consequentemente, a luz que está dentro de você é a percepção de um olho com lealdades divididas ou uma postura egoísta; em ambas as situações, o que existe é, de fato, a escuridão.

3. Senhorio - 6.24

24 — Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.

Jesus, magistralmente, ensina que por trás da escolha entre dois tesouros e duas visões está a ainda mais elementar escolha entre dois mestres (a quem serviremos).

Deus e Dinheiro (Dinheiro é a tradução da palavra grega Mamom) não são retratados como empregadores, mas como senhores de escravos. O homem não pode servir a dois senhores de escravos. Ou Deus é servido com devoção total ou não é servido de maneira alguma.


A idolatria do coração

A advertência de Jesus estava relacionada com pessoas em que a sua principal ou total satisfação desta vida diz respeito somente a coisas deste mundo.

Do perigo de confinar suas ambições, os seus interesses e as suas esperanças a esta vida apenas.

O catecismo Nova Cidade definiu idolatria - Pergunta 17: O que é idolatria? Idolatria é confiar nas coisas criadas, e não no Criador, para nossa esperança e felicidade, relevância e segurança.

O tesouro pode não ser dinheiro. Pode ser o marido, a esposa ou os filhos; pode ser um dom sem valor monetário, a residência, ou mesmo a saúde. Não importa o quão pequeno seja, se representar tudo para o indivíduo, então, aquilo é seu tesouro. A bíblia retrata isso como idolatria.

Em resumo, essas coisas boas, podem controlar o coração, manipular a mente e corromper a maneira de enxergar. Toda a perspectiva pode ser controlada por essas coisas. O motivo para tudo isso é o pecado, que literalmente cega o homem para aquilo que parece óbvio.

Estes tesouros terrestres são tão poderosos que dominam a personalidade inteira da pessoa. Elas dominam o coração, a mente, e a vontade. E Jesus adverte: 24“Ninguém pode servir a dois senhores”. Temos dois lados e ambos exigem dedicação total. As coisas deste mundo, quando utilizadas de maneira equivocada, demandam devoção completa. Afetam todos os aspectos da vida e levam o indivíduo a tomar decisões de acordo com suas exigências. Não é verdade que as coisas que gostamos são as últimas das quais abrimos mão? Essas coisas tendem a interpor-se entre nós e o Rei, e a nossa atitude para com elas é o que, afinal de contas, determinam a qualidade de nosso relacionamento com Deus. Somente o fato de acreditarmos em Deus e chamá-lo de Senhor, não serve de prova conclusiva de que o estamos servindo-o ou entregando-nos total e alegremente a ele.

O resultado é que aquilo que durante um tempo é a fonte de satisfação, começa a perder o sabor, fica embotado e desinteressante. Essa é a razão pela qual os homens estão sempre em busca de novidades, mudanças provisórias de casa, emprego ou mesmo de casamento. O motivo de prazer já não produz o mesmo efeito.


Superando a idolatria – Amar a Deus

Mateus 6.24 — Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.

Para superar a idolatria, há um caminho central: Amar e dedicar-se exclusivamente a Deus. Na prática, isso se manifesta da seguinte forma:

O Rei

  1. Admitir e identificar os ídolos do coração. Reconheça que, por causa do pecado, até mesmo as coisas boas e as dádivas de Deus podem obscurecer a nossa perspectiva.

  2. Mantenha uma vigilância constante sobre os possíveis ídolos do coração, permanecendo atento à possibilidade de idolatria.

  3. Medite continuamente e incorpore as verdades do evangelho de Jesus Cristo, com foco especial na justificação somente pela fé.

  4. Aplique o evangelho de forma contínua em todas as áreas de pressão do coração, permitindo que ele molde as suas decisões.

O Reino


  • Desfrutar da comunhão do povo de Deus como auxílio no combate aos ídolos do coração. Nela, encontramos exemplos de pessoas presas à idolatria ou que já a superaram.
  • Participe do culto de adoração do povo de Deus. Ao cantarmos, falarmos, orarmos, ouvirmos e vermos continuamente a Palavra de Deus, nosso coração é ensinado a amar cada vez mais o Senhor que nos salvou.
  • Sirva à causa de Cristo. Ao servir o próximo além da nossa vontade ou convívio imediato, expressamos o amor de Cristo e, simultaneamente, combatemos o egoísmo e a autoexaltação.


Conclusão

O indivíduo que se reconhece como súdito do reino eterno de Cristo, tem um ponto de vista inteiramente diferente das realidades desta vida e deste mundo. Isso é uma verdade necessária, e, quanto mais profunda for essa confiança e esse conhecimento, menor será a importância dada pelo crente às outras coisas. Nesse sentido, se a pessoa foi abençoada com bens materiais, com uma família saudável ou saúde perfeita, utilize-as de tal modo, enquanto vive neste mundo, como um servo fiel do Senhor. O crente é um mero peregrino. Ele está caminhando neste mundo debaixo dos olhos atentos e amorosos de Deus, aproximando-se cada vez mais dele e na direção de sua promessa eterna.

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