Bem-aventurados do Reino
Mateus 5. 3 — Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 — Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 — Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 — Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 — Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 — Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. 9 — Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. 10 — Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 — Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês. 12Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.
O Rei inicia o seu primeiro discurso (o Sermão do Monte) abordando um tema central da experiência humana: a busca pela felicidade (as bem-aventuranças).
As bem-aventuranças são descrições das qualidades que devem ser encontradas na vida dos que se submetem ao domínio soberano de Deus. Elas são também uma declaração das bênçãos que já experimentam em parte e que irão gozar mais plenamente na vida futura todos os que revelem tais virtudes.
As qualidades aqui indicadas formam o caráter daqueles que serão aceitos pelo Rei divino como seus súditos - qualquer pessoa que se diga filho de Deus, ou que diz conhecê-lo, ou pertencer ao seu reino, ou ser membro de seu corpo, a Igreja.
Nosso objetivo, portanto, é mostrar quem é e quais são as qualidades do bem-aventurado na visão de Jesus. É esse o tipo de pessoa que devemos admirar e essas as qualidades que devemos almejar ter.
Visão geral das bem-aventuranças
Para iniciar, apresentaremos algumas observações cruciais sobre as bem-aventuranças.
1. O ponto crucial aqui é quem está falando essas coisas. Não é um guru da moda, um líder místico ou um filósofo. Quem falou isso é a inteligência por trás da criação do universo. É aquele que entende tudo sobre as relações humanas e que, de forma clara e direta, mostrou o caminho do dicipulado para as pessoas.
2. Assim devem ser os seguidores de Cristo. Ao lermos as bem- aventuranças, encontramos a descrição do que todo cristão deve ser. Não se trata de um rol de características de alguns crentes excepcionalmente virtuosos ou espirituais — uma espécie de elite. Pelo contrário, elas descrevem as virtudes que deveriam estar presentes em todos os seus seguidores.
3. Espera-se que todos os crentes manifestem todas essas virtudes. É evidente que não se esperam apenas essas qualidades de todos os crentes; na verdade, é essencial que todos os crentes as demonstrem em sua totalidade. Em vez de alguns crentes manifestarem certas virtudes e outros manifestarem outras, a verdade é que todo crente, sem exceção, manifestará todas essas virtudes.
4. Essas virtudes não podem ser consideradas como inclinações naturais. As bem-aventuranças representam disposições que só podem ser geradas em nós pela graça e pela obra do Espírito Santo. Por natureza, o ser humano não se enquadra nessas descrições; na verdade, algumas delas chegam a ser desprezadas. Devemos ter o cuidado de distinguir entre essas qualidades espirituais e as qualidades naturais que lhes são semelhantes (como "os que choram" ou "os pobres de espírito"), pois não se trata de características naturais de temperamento, mas sim de disposições produzidas exclusivamente pela graça de Deus.
5. Estão presentes em todo verdadeiro cristão, em qualquer época, variando apenas em grau. Não há níveis de espiritualidade entre os crentes, nem as bem-aventuranças são um objetivo a ser alcançado por esforço próprio ou o auge da plenitude espiritual. Pelo contrário, elas representam o ponto de partida para todos aqueles cuja mente foi iluminada a respeito da essência do caráter cristão.
A seguir, deve-se analisar cada uma das características distintivas do discipulado cristão:
Mateus 5. 3 — Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Os pobres-de-espírito são os que reconhecem de coração ser "pobres" no sentido de não poderem realizar nenhum bem sem assistência divina e que não têm nenhum poder em si mesmos que os ajude a fazer o que Deus requer deles - os orgulhosos por sua auto- suficiência são inevitavelmente excluídos.
4 — Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Os que choram são os que lamentam tanto os seus próprios pecados e falhas, como o mal tão preponderante no mundo, causando tanto sofrimento e miséria. Certamente, chegará o dia em que Deus "lhes enxugará dos olhos toda lágrima".
5 — Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Os mansos são aqueles que se humilham diante de Deus por reconhecerem sua total dependência dele. Como consequência são gentis no trato com os outros. Quando Deus tiver destruído todos os que em sua arrogância resistem à sua vontade, os mansos serão os únicos a herdar a terra.
6 — Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Os que têm fome e sede de justiça são os que, por ansiarem por ver o triunfo final de Deus sobre o mal e o seu reino plenamente estabelecido, anseiam também por fazer eles próprios o que é justo e reto. Todos estes têm a crescente satisfação de saber que estão avançando e não bloqueando os propósitos de Deus.
7 — Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Os misericordiosos são aqueles que estão conscientes de ser indignos recipientes da misericórdia de Deus e que, não fosse por essa misericórdia, eles não seriam apenas pecadores, mas pecadores condenados. Consequentemente esforçam-se por refletir no seu convívio com outros algo da misericórdia que Deus mostrou para com eles.
8 — Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.
Os limpos de coração são os íntegros, livres da tirania de um "eu" dividido, e que não ficam tentando servir a Deus e ao mundo ao mesmo tempo. Destes é impossível que Deus se esconda.
9 — Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Os pacificadores são os que estão em paz com Deus, são os que mostram ser verdadeiramente filhos de Deus, esforçando-se para aproveitar qualquer oportunidade que se lhes abra para efetuar a reconciliação entre aqueles que estão em desavença.
10 — Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Aqueles que são perseguidos sofrem simplesmente por sustentarem os padrões divinos de verdade, justiça e pureza, recusando-se a ajustar- se ao paganismo ou a curvar-se perante os ídolos que os homens erguem como substitutos de Deus.
11 — Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês. 12Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.
Jesus se volta para os discípulos advertindo-os de que, quando ele, o Messias, se retirasse da presença deles, o ódio do mundo, até então voltado contra ele enquanto estava na terra, se voltaria contra seus seguidores. Estes deviam alegrar-se muito sabendo que tal sofrimento seria indicação de estarem eles na linha de descendência dos profetas que anunciaram a vinda do Messias.
O cerne das bem-aventuranças
Todas essas qualidades convergem em um ponto: elas evidenciam a total falência da condição humana fora de Deus. Os crentes, portanto, precisam demonstrar sua indignidade perante Deus e sua completa dependência Dele.
O Reino é reservado àqueles que se reconhecem pobres, que choram, que são desprezados, humildes e misericordiosos, justamente por saberem que nada podem oferecer em troca.
Tudo se inicia com a confissão de que a pessoa, por si só, é incapaz de alcançar qualquer coisa. O crente é aquele que reconhece sua profunda necessidade espiritual, tendo a convicção de que, em seu estado natural, não reside nele bem espiritual algum. Ele carrega um profundo senso do pecado repulsivo que o acompanha desde o nascimento, reconhecendo ter, com isso, entristecido o Espírito Santo.
Nessa situação, o que ele tem a oferecer a Deus? De que forma pode compensar os pecados passados? Como se apresentar diante da santa presença de Deus? A conclusão é que ele se percebe totalmente impotente para expiar seus erros. Ele é incapaz de se reconciliar com Deus.
Bem-aventurados são aqueles que alcançam a convicção do perdão, recebido pela graça de Deus manifestada em Jesus. Ao aceitarmos isso, somos habilitados a receber a promessa do Reino de Deus. O Reino dos Céus traz consigo consolo, justiça, misericórdia, paz e alegria, representando nossa renovação à imagem do Deus que nos criou.
As bem-aventuranças apontam sempre para um único foco: a percepção da nossa total insuficiência e inaptidão diante da santidade de Deus. Elas destacam a necessidade crucial de reconhecermos nossa condição de alienação e, por outro lado, a maravilhosa graça de Deus que se manifesta no resgate de todos os que estavam perdidos.
Quanto mais nos aprofundamos na graça, maior é a nossa percepção da maldade inerente ao nosso coração. Dessa forma, à medida que progredimos no conhecimento e no amor de Deus, manifestados em Jesus, mais clara se torna a consciência da nossa distância e separação Dele, estabelecendo um ciclo de crescimento espiritual.
As bem-aventuranças e suas aspirações
As características distintivas do discipulado cristão devem redundar em um estilo de vida que expresse esses atributos.
● O reino
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“Quando a igreja é absolutamente diferente do mundo, inevitavelmente ela atrai as pessoas. É somente então que este mundo começa a dar ouvidos à mensagem cristã, embora possa odiá-la a princípio. É assim que os reavivamentos têm início. Ora, isso também precisa ocorrer conosco como indivíduos.” Lloyd Jones
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Apesar das palavras do nobre pastor fazerem sentido, a realidade está distante disso. Não deveríamos querer ser iguais a todos, mesmo sendo crentes. Ao contrário, deveríamos almejar ser o mais distintos possível daqueles que não creem. Contudo, na prática, o que vemos é que as palavras deles são mais sedutoras, suas vidas mais atraentes e até mesmo suas virtudes acabam sendo imitadas.
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Os crentes são distintos dos não-crentes não só em sua essência, mas também porque habitam simultaneamente em dois domínios diferentes. Em última instância, sua verdadeira pertença é a um reino que transcende este mundo.
● O rei
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Aquilo que atrai a admiração do homem que vive no mundo contrasta totalmente com o que encontramos nas bem- aventuranças. Pense, por um momento, em uma pessoa comum, sem interesse no cristianismo. Tente identificar o que ela realmente busca e deseja. É fácil notar nela traços de orgulho, arrogância e egoísmo. Tais atitudes são o oposto das virtudes descritas aqui (humildade, pranto e pacificação).
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A lamentável coerência do homem natural reside no fato de que ele vive inteiramente para este mundo, com a mentalidade de que "este é o único mundo que existe, e preciso aproveitá-lo ao máximo". Em contraste, o crente aprende que sua vida não se resume a este mundo; ele o vê apenas como um portal para algo muito mais vasto, eterno e glorioso. Sua atitude, portanto, deveria estar alinhada com essa perspectiva mais elevada.
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Assim, a passagem das bem-aventuranças descreve o crente, evidenciando a diferença fundamental entre ele e o incrédulo. Diante disso, as questões essenciais que devemos considerar são: já pertencemos a este reino? Permitimos que Cristo nos governe? Ele é, de fato, nosso Rei e Senhor? As virtudes que Ele recomenda estão se manifestando em nossas vidas? É este o nosso maior desejo e aspiração?
Conclusão
Se alguém, por acaso, achar que as virtudes recomendadas são excessivamente difíceis ou severas, ou sentir que elas são contrárias ao seu modo de vida, retratando um estilo de vida que não lhe agrada e um caráter que não deseja, então essa pessoa deve considerar que isso pode ser um sinal de que ela simplesmente não é cristã.
Por outro lado, se alguém, mesmo sentindo-se indigno, almeja ardentemente conformar-se a essas virtudes bíblicas, esse profundo anseio e ambição são, muito provavelmente, o resultado da nova vida gerada pelo Espírito em seu interior. Tal pessoa deve ser considerada, portanto, uma filha de Deus e uma cidadã do reino dos céus.
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