Vocês são...
Mateus 5.11 — Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês. 12Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês. 13 — Vocês são o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. 14 — Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada no alto de um monte. 15Nem se acende uma lamparina para colocá-la debaixo de um cesto, mas num lugar adequado onde ilumina bem todos os que estão na casa. 16Assim brilhe também a luz de vocês diante dos outros, para que vejam as boas obras que vocês fazem e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus.
De modo geral, estudiosos concordam que estes versículos servem como uma aplicação da mensagem e da verdade das bem- aventuranças aos discípulos de Cristo.
Entende-se que Jesus completou a descrição geral das características dos crentes no final do versículo 10 e, em seguida, aplicou Seu ensinamento aos Seus seguidores. Portanto, o foco não é mais tanto a descrição do crente, mas sim um retrato do que provavelmente lhe acontecerá como resultado das virtudes mencionadas.
O reconhecimento de um crente pode ocorrer de duas maneiras básicas. Ele pode ser reconhecido por quem ele é em si mesmo, ou através de suas reações a diversas situações que enfrenta nesta vida e neste mundo. As pessoas estão observando os cristãos e notando uma diferença? Estão examinando suas vidas e questionando: “Por que são tão equilibrados? Como conseguem suportar tamanha aflição? O que eles têm que nos falta?”
Assim, passamos da contemplação do caráter e das virtudes do crente para a consideração de sua função e propósito no mundo, conforme o desígnio e o propósito de Deus.
Podemos perceber – mesmo que de forma velada – uma progressão no discurso de Jesus. Para ele: (1) as virtudes geram perseguições; (2) a perseguição leva ao evangelismo e (3) o evangelismo produz discípulos. Vamos elucidar cada ponto:
As virtudes geram perseguições
Mateus 5.11 — Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês. 12Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.
O crente é alvo de perseguição tanto pela pessoa que ele é quanto pela forma como se comporta.
A história da igreja atesta isso: os cristãos foram perseguidos pelo império por se recusarem a adorar a imagem do imperador, foram perseguidos por outros crentes por defenderem a fé, e por tiranos por não se submeterem ao estado. No entanto, o cenário atual é de uma das maiores perseguições desde os primórdios da era cristã, com muitos crentes sendo perseguidos ativamente e com amargura em diversas nações neste exato momento.
Em vista disso, estes versículos se tornam de suma importância para a vida cristã neste tempo. Contudo, é fundamental que compreendamos com exatidão o que eles ensinam. Para tanto, é preciso primeiro esclarecer o que essa perseguição não é:
A perseguição em questão não decorre de atitudes insensatas, tolice ou inexperiência dos crentes, nem do seu fanatismo, legalismo ou moralismo. Ela também não é causada pela defesa de alguma causa política, social ou religiosa, nem pelo fato de os crentes serem pessoas nobres, abnegadas e bondosas. Além disso, essa perseguição não deve ser confundida com as lutas, dificuldades e sofrimentos inerentes à condição humana que todos enfrentam ao longo da vida.
Qual é, então, o motivo dessa perseguição? O que pode levar o crente a ser perseguido de forma tão cruel? O texto é claro: por minha causa. Isso aponta para o fato de que a perseguição surge quando os crentes se assemelham a Cristo. Quando eles buscam o discipulado, reproduzem as virtudes de Cristo e se tornam parecidos com Jesus, a perseguição se manifesta. Em resumo, a imitação de Cristo é o catalisador da perseguição.
Senão vejamos o que Paulo disse: 2Timóteo 3.12 Na verdade, todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Nesse ponto indagamos: “estou sofrendo perseguições por causa do meu estilo de vida em imitação a Cristo?”.
Se o conceito que dele refletimos pode ser aplaudido e até admirado pelos homens, então o nosso ponto de vista sobre ele deve estar muito distorcido. O argumento força-nos a sondar nosso pensamento a respeito do que seja uma pessoa crente. Um cristão é alguém parecido com Jesus, sendo essa a razão pela qual ele mesmo disse para determinados indivíduos: Lucas 6.26 — Ai de vocês, quando todos os elogiarem, porque os pais dessas pessoas fizeram o mesmo com os falsos profetas!
Ser cristão, em essência, significa ser à imagem de Jesus Cristo. Essa semelhança só é alcançada por meio de uma transformação completa, na qual recebemos uma nova natureza. Essa nova natureza nos leva a amar a salvação e a Cristo, resultando em um crescimento contínuo na semelhança com Ele. Quando um crente espelha a Cristo, a hostilidade do mundo é a consequência inevitável. Simplesmente ser como Cristo é suficiente para atrair perseguições.
Diante da perseguição, qual deve ser a reação do crente? O cristão é chamado a não retaliar, a não se ofender (evitando o ressentimento) e a não se entristecer com a situação ("Por que estou sendo tratado assim?"). Alguns podem argumentar que isso é "impossível". De fato, para a pessoa sem fé, isso não é apenas impossível, mas também inaceitável. Contudo, para o cristão, essa é a sua vocação. O crente é chamado justamente para ser semelhante a Jesus Cristo.
O evangelista acrescenta uma informação: 12Alegrem-se e regozijem-se. Como podemos nos alegrar em meio à perseguição? É crucial entender que a alegria não reside na perseguição em si. Adotar a mentalidade de: "Sou superior aos outros; vejam o que enfrento por Cristo. Serei recompensado por Deus!" — é um erro. Essa atitude era a dos fariseus e é um comportamento que os crentes não devem imitar.
A perseguição deve sempre provocar lamento no crente, que deveria sentir profunda tristeza por testemunhar tamanha desumanidade e comportamento diabólico. Diante da grosseria, crueldade e zombaria, o cristão precisa reconhecer: "Eles agem assim porque não conhecem a Cristo". Por isso, em vez de guardar ressentimento, desejar vingança ou se deprimir, essa situação deve motivá-lo à evangelização.
A perseguição leva ao evangelismo
Mateus 5.13 — Vocês são o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.
O cristão não vive em total isolamento do mundo. Apesar de não pertencer a ele, o crente mantém um relacionamento com o mundo.
O erro mais evidente do monasticismo tem sido exatamente esse: a ideia de que o cristão deveria se afastar da convivência mundana. Contudo, essa visão é refutada por toda a Escritura, especialmente nos versículos que temos em análise.
Qual deve ser então, a relação entre o povo crente, por um lado, e a sociedade e o mundo, do outro? “Vocês são o sal da terra”. Essas palavras descrevem ao mesmo tempo o crente, e o mundo em que ele vive.
Devido à Queda, o mundo em que vivemos é um lugar decaído, pecaminoso e mau. Ele está em constante inclinação à destruição e ao conflito, assemelhando-se à carne em putrefação. O pecado humano faz com que a vida neste mundo tenda a piorar, a se corromper. Segundo as Escrituras, essa é a única perspectiva sóbria e correta para se ver a humanidade. Nenhum cristão deve se surpreender com os acontecimentos recentes, pois é isso que a Bíblia afirma sobre este mundo.
Muitas pessoas mantêm a firme convicção de que soluções para os maiores problemas do mundo surgirão através de ações parlamentares, conferências internacionais, fraternidades universais ou avanços tecnológicos. Acreditam, de forma obstinada, na capacidade humana — seja ela intelectual, social ou psicológica — de mudar qualquer coisa.
No entanto, a realidade observada aponta para o oposto. A evolução não se traduziu em solução. A verdade inegável é que o mundo não possui a capacidade de se salvar; ele precisa de um elemento preservador (o "sal") para evitar a deterioração total e definitiva.
O sal também tem a função de conferir sabor, evitando que o alimento se torne insosso. Sem o cristianismo, a vida neste mundo se tornaria insípida. O cenário mundial atual não comprova essa
afirmação? Basta observar a busca incessante por prazeres, dopamina e serotonina. É notório que as pessoas estão sentindo a vida monótona e tediosa, o que as leva a procurar avidamente esta ou aquela forma de lazer e entretenimento.
Qual é a implicação disso para os crentes que vivem no mundo? Cristo comparou o crente ao sal. O sal tem a função de retardar a deterioração e de dar sabor. Como um cristão cumpre essa função? O crente deve agir individualmente como o "sal da terra". Ele faz isso por meio de seu caráter e de sua vida, simplesmente sendo quem é, em qualquer ambiente em que se encontre. Sua missão principal é pregar o evangelho, levando a mensagem da salvação a todas as pessoas por meio de suas ações, atitudes e palavras.
Lloyd Jones observou: “o indivíduo verdadeiramente santificado irradia certa influência pessoal; essa influência permeia e penetra em qualquer grupo de pessoas entre as quais tal pessoa porventura esteja. Mas a dificuldade é que nosso sal tem perdido o sabor, em grande número de instâncias; e não mais estamos influenciando e controlando nossos semelhantes incrédulos por sermos santos, conforme deveríamos estar fazendo.”
Essa é uma avaliação assustadora, mas inegavelmente precisa. Não estamos testemunhando um declínio visível nas virtudes da nossa geração de crentes? É inegável que os acontecimentos no meio cristão têm nos escandalizado cada vez mais. O número de crentes apenas nominais tem crescido exponencialmente.
Somente pessoas genuinamente convertidas podem deter o avanço do atual estado das coisas. A grande esperança da sociedade reside no aumento constante de crentes individuais que se comprometem a levar a mensagem de salvação ao maior número de pessoas possível.
O evangelismo produz discípulos
Mateus 5.14 — Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada no alto de um monte. 15Nem se acende uma lamparina para colocá-la debaixo de um cesto, mas num lugar adequado onde ilumina bem todos os que estão na casa. 16Assim brilhe também a luz de vocês diante dos outros, para que vejam as boas obras que vocês fazem e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus.
Uma notável característica das Escrituras é sua capacidade de condensar toda a essência de nossa posição como cristãos em uma única e poderosa afirmação. O versículo em questão é um excelente exemplo disso.
Dirigindo-se àqueles homens simples, desprovidos de qualquer relevância mundana, o Senhor Jesus declarou: "Vocês são a luz do mundo." Esta é uma daquelas declarações que deveria causar em nós um impacto duradouro, levando-nos a reconhecer a natureza extraordinária e gloriosa de sermos seguidores de Cristo.
No entanto, algumas outras questões podem ser observadas neste texto. A primeira delas é a escuridão em que o mundo se encontra, mesmo que ele insista em se referir à sua própria luz. "Ser iluminado" é uma das expressões prediletas do mundo desde a Renascença, período em que o interesse humano pelo conhecimento organizado ressurgiu. Eles se referem a esse movimento simplesmente como "Iluminismo".
É inegável que essa situação se aplica a inúmeros e diversos assuntos. Seria insensato questionar essa realidade. No entanto, é precisamente aí que reside a nossa dificuldade. O conhecimento que adquirimos é puramente técnico e científico. Contudo, quando nos voltamos para as questões mais essenciais, os grandes problemas da existência e da vida, a declaração de Jesus não continua a ser a mais pura verdade? A Bíblia segue afirmando que o mundo, em sua essência, permanece em estado de escuridão.
Os maiores pensadores e filósofos de hoje encontram-se totalmente perplexos. Os escritores sentem-se inteiramente desconcertados ao tentar compreender e explicar o estado atual da nossa sociedade. Esta dificuldade reside na teoria predominante entre eles, de que o único requisito do ser humano é mais conhecimento. A escuridão reinante nunca esteve tão evidente como agora, e é neste contexto que nos deparamos com uma declaração estonteante e espantosa.
É notável que, séculos antes de Jesus proferir estas palavras, os grandes nomes da filosofia grega já haviam apresentado suas ideias com grande eloquência. Após tamanha exuberância retórica e intelectual por parte desses pensadores, Jesus fez a seguinte declaração. Ele olhou para um pequeno e insignificante grupo de pessoas comuns e afirmou: “Vocês são a luz do mundo.” Curiosamente, Ele não direcionou essa mesma declaração aos maiores intelectuais da época.
Imediatamente, surge a questão: de que maneira essas palavras podem ser aplicadas de forma prática na vida dos fiéis? Como alguém que aceitou o evangelho, o cristão é agraciado com luz, discernimento e orientação, que se tornam parte intrínseca de seu ser. Essa luz passa a ser sua própria vida, manifestando-se em suas ações. Em síntese, o crente é aquele que recebeu a natureza divina e dela se tornou participante.
A nova natureza que reside no cristão deve produzir um efeito imediato, independentemente de onde ele esteja. Assim, ao considerarem a virtude do cristão, as pessoas são levadas a questionar seus próprios valores. É neste ponto que o elemento iluminador se manifesta, abrindo a oportunidade de dialogar com os outros e de testemunhar a obra de Cristo.
Assim, o cristão oferece ao mundo um modelo a ser seguido, demonstrando a existência de uma alternativa de vida para a humanidade. A luz do evangelho na vida do crente é tão intensa que ofusca a visão dos descrentes, forçando-os a confrontar a si mesmos. É justamente essa confrontação que representa a maior dificuldade para o indivíduo sem Deus. O evangelho se manifesta como um facho de luz no céu, brilhando na vida de cada crente verdadeiro, mesmo em meio aos problemas mais críticos deste mundo caído, miserável e infeliz.
A luz não apenas revela as trevas, mas também aponta e oferece o único meio de sair delas. É neste ponto que todo crente deveria dedicar-se imediatamente ao trabalho. Eles estão vivendo em meio a homens e mulheres imersos nas trevas mais densas, que não encontraram luz neste mundo, exceto no evangelho em que creem e que ensinam.
Conclusão
Será que as pessoas ao nosso redor percebem algo diferente nos cristãos? Elas observam suas vidas e se perguntam: "Por que eles demonstram tanto equilíbrio? Como conseguem enfrentar e suportar
tanta dificuldade? O que é que eles possuem que nos falta?". Se as pessoas fizerem esses questionamentos aos cristãos, aqueles que estiverem preparados com a Palavra poderão lhes apresentar as admiráveis, notáveis e, tragicamente, negligenciadas boas novas.
Neste mundo de escuridão e degradação, os crentes foram designados como a luz e o sal. Assim, eles devem cumprir seu propósito e viver de acordo com o seu chamado, mesmo que enfrentem severas perseguições.
Comentários
Postar um comentário