O Rei e o casamento
Mateus 5.27 — Vocês ouviram o que foi dito: “Não cometa adultério.” 28Eu, porém, lhes digo: todo o que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela no seu coração. 29 — Se o seu olho direito leva você a tropeçar, arranque-o e jogue- o fora. Pois é preferível você perder uma parte do seu corpo do que ter o corpo inteiro lançado no inferno. 30E, se a sua mão direita leva você a tropeçar, corte-a e jogue-a fora. Pois é preferível você perder uma parte do seu corpo do que o corpo inteiro ir para o inferno. 31 — Também foi dito: “Aquele que repudiar a sua mulher deve dar-lhe uma carta de divórcio.” 32Eu, porém, lhes digo: quem repudiar a sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a se tornar adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.
Esta é a segunda ilustração de Jesus sobre seu ensino a respeito da lei, na qual ele apresenta sua hermenêutica autorizada. Os judeus haviam negligenciado o espírito da lei, que sempre enfatiza a centralidade do coração. Contudo, os religiosos, com suas abordagens mecânicas de adoração e obediência, ignoravam completamente esse elemento vital.
Um ensinamento crucial sobre o pecado é que ele reside no coração humano. Isso implica que o homem necessita de um poder superior a si mesmo para vencer seu maior inimigo. Assim, ele é levado a buscar e depender de Jesus, pois o pecado o força a reconhecer que, sem Cristo, ele nada pode fazer.
Nessa passagem o Rei aborda duas situações conectada: (1) a questão do adultério e da imoralidade sexual e (2) o divórcio e suas repercussões no coração e na atitude dos súditos do reino. Por que os assuntos relacionados ao casamento exigem compromissos e regulamentos aparentemente tão estreitos? A intenção do autor é ressaltar a santidade inerente ao matrimônio e suas implicações ao nosso relacionamento com Deus.
Há duas recomendações cruciais que precisamos levar em conta:
Primeiramente, é fundamental analisar e avaliar cada situação parecida ou idêntica às descritas, especialmente aquelas envolvendo divórcio e um novo casamento, com cuidado e discernimento, mas também com amor e graça. Embora os princípios bíblicos sejam imutáveis, cada caso é único e exige uma atenção individualizada.
Em segundo lugar, a maioria dos cristãos tem a tendência de fugir ou evitar este tema. Contudo, é vital lembrar que estes versículos são parte da inerrante Palavra de Deus, assim como qualquer outro trecho das Escrituras. A nossa inclinação humana, no modo como interagimos com a Bíblia, é isolar os textos dos seus contextos, escolhendo o que mais nos agrada ou interessa, e convenientemente ignorando ou esquecendo o restante.
Adultério, Divórcio e o Ensino de Jesus
O texto envolve um tema cercado de inúmeras dificuldades. A maior dificuldade é o coração humano. Jesus não permite as manobras e tangenciamentos que são comuns nos homens.
27 — Vocês ouviram o que foi dito: “Não cometa adultério.” 28Eu, porém, lhes digo: todo o que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela no seu coração.
Jesus ensinava que o sétimo mandamento aponta para algo mais profundo que o ato em si: a pureza que se opõe à cobiça — o foco do décimo mandamento. Assim, no ponto em que a intenção se manifesta, já comete adultério. O cerne da questão continua sendo a cobiça e a intenção.
Jesus coloca duas condições:
1. 29 — Se o seu olho direito leva você a tropeçar, arranque-o e jogue-o fora. Pois é preferível você perder uma parte do seu corpo do que ter o corpo
inteiro lançado no inferno. (1) O “olho” é o membro do corpo mais comumente culpado de nos fazer desviar, especialmente em relação aos pecados sexuais.
2. 30E, se a sua mão direita leva você a tropeçar, corte-a e jogue-a fora. (2) Mas por que a “mão direita" em um contexto que lida com a luxúria? É mais provável que seja um eufemismo para o órgão sexual masculino.
O tratamento radical para as partes do corpo que fazem o indivíduo pecar levou alguns (notoriamente Orígenes) a castrar-se. Mas isso não é radical o bastante, uma vez que a luxúria não é removida dessa maneira.
Cortar ou arrancar a parte do corpo que cometeu ofensa é um modo de dizer que os discípulos de Jesus têm de lidar de forma radical com o pecado.
Pois é preferível você perder uma parte do seu corpo do que o corpo inteiro ir para o inferno. A alternativa é pecado e inferno, a recompensa do pecado.
31 — Também foi dito: “Aquele que repudiar a sua mulher deve dar-lhe uma carta de divórcio.” 32Eu, porém, lhes digo: quem repudiar a sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a se tornar adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.
Jesus leva adiante o argumento da perícope precedente. O peso dessa passagem está em sua clareza e objetividade. O Antigo Testamento sustenta que a imoralidade sexual e o divórcio são moralmente equivalentes ao adultério. O novo casamento, quer da perspectiva do divorciado quer da daquele que se casa com o divorciado, é considerado por Jesus como adultério.
D. A. Carson explica:
A passagem do Antigo Testamento a que Jesus se refere é Deuteronômio 24.1-4, cuja força propulsora é que se o homem se divorcia de sua esposa por “encontrar nela algo que ele reprova” (sem maiores definições do que seja), ele deve dar-lhe certidão de divórcio, e se ela, depois, tornar-se esposa de outro homem e se divorciar de novo, o primeiro marido não pode casar de novo com ela. Essa dupla restrição — o certificado e a proibição de se casar de novo - desencorajava divórcios precipitados. Aqui, Jesus não entra na discussão do que é "encontrar nela algo que ele reprova". Em vez disso, ele insiste que a lei apontava para a santidade do casamento.
Jesus critica veementemente a tradição judaica permissiva e a interpretação distorcida dos mestres da lei em relação ao divórcio. As pessoas haviam se acostumado a repudiar suas esposas por motivos banais, bastando uma palavra impensada ou um pretexto superficial ("encontrar nela algo que ele reprova"). Para evitar essa prática, Moisés exigiu uma carta de divórcio, forçando um período de reflexão e garantindo que a separação, se inevitável, fosse um ato formal e deliberado.
No entanto, o próprio Jesus estabeleceu uma legislação clara e precisa: o divórcio é proibido, exceto no caso de infidelidade conjugal. Em outra passagem (Mt 19.3-12) ele ressalta que a permissão de Moisés para o divórcio era uma concessão tolerada devido à “dureza dos corações” daquele povo, mas que jamais foi um ato aprovado por Deus.
O Rei não aceita leis humanas que permitam a dissolução do casamento por meros pretextos. Portanto, uma santidade é conferida ao casamento, que a legislação humana não deve violar. O texto adverte contra aqueles que buscam deformar as leis de casamento sob a desculpa de reformá-las. A sabedoria de Deus é superior à dos modernos reformadores sociais. A recomendação final é permanecer fiel somente às leis divinas, pois nada melhor será encontrado.
O Rei e o casamento
Efésios 5.30 pois somos membros do seu corpo. 31“Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne.” 32Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à igreja. 33Portanto, cada um de vocês também ame a sua mulher como a você mesmo, e a mulher trate o marido com todo o respeito.
Por que Jesus se referiu ao divórcio e ao adultério de maneira tão peculiar? No texto citado acima, Paulo declara que o casamento é um grande mistério. Em toda a Bíblia, o termo utilizado pelo apóstolo não se refere a um conhecimento místico ou esotérico, concedido apenas para algumas pessoas de forma especial – os mais evoluídos. Comumente, a expressão descreve a maravilhosa e gloriosa verdade de Deus revelada em Jesus. O apóstolo espantosamente aplica essa sentença tão impressionante ao casamento.
No versículo 31, ele menciona o relato de Gênesis sobre o primeiro casamento, para em seguida dizer que “este é um mistério profundo”. Entretanto, qual mistério profundo é esse? Ainda mais surpreendente, Paulo acrescenta “refiro-me, porém, a Cristo e à igreja”. Mas ele não estava falando de casamento? Porque mudar o assunto assim? Na verdade, Paulo estava indicando o que disse nos versículos acima. Vejamos:
Efésios 5.25 Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela
Em outras palavras, “o mistério profundo” não é apenas o casamento em si, mas a mensagem de que os maridos devem fazer pelas esposas aquilo que Jesus fez quando colocou os crentes em aliança com ele. Quando Deus estabeleceu o casamento seu propósito era manifestar alguma coisa maior. Ele olhava para o evangelho.
Desse modo, se Deus vislumbrou o evangelho da graça de Jesus quando instituiu o casamento, logo, o casamento só
pode funcionar corretamente à medida que reflete o modelo de relacionamento de Cristo com seu povo. Esse é o mistério: o evangelho e o casamento se comunicam um ao outro de modo interligado. Quando Deus criou o casamento, ele já intentava demonstrar a obra salvadora de Jesus. Não podemos entender plenamente o casamento se não compreendermos o que significa o evangelho e suas implicações em nossas vidas.
Aplicações
● O rei e o reino – Como cidadãos do reino os crentes devem regidos pelas leis do reino que incluem:
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Os crentes não podem optar pelo divórcio – essa opção está completamente vedada aos seguidores de Cristo.
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Existem circunstâncias que podem conduzir o casamento ao divórcio: (1) imoralidade sexual impenitente e (2) abandono - inclusive violência - irremediado e irreversível.
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O casamento não é apenas uma união humana. O próprio Deus está envolvido em sua concepção e preservação. Deus estabelece seus parâmetros: Monogâmico, heterossexual e vitalício.
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O casamento é bom e foi criado por Deus para refletir sua união com seu povo. Desse modo o casamento só pode ser completamente compreendido e desfrutado a luz do evangelho de Cristo. Temas como sacrifício, amor, perdão e entrega devem sobrepor-se aos desejos pessoais.
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O casamento não é um fim em si mesmo. Ele não existe para agradar aos parceiros amorosos ou cumprir obrigações sociais. O casamento carrega propósitosestabelecidos pelo próprio Deus, a saber, expressar a união Cristo e a igreja, procriação e preservação da raça humana por meio de uma comunidade sólida (casal e filhos) e o cuidado mútuo.
A seriedade, a profundidade e o efeito do pecado na alma do homem. O pecado transforma os membros (mãos e olhos) que Deus nos deu, e que têm como propósito ministrar para o bem, em nossos inimigos.
Conclusão
O princípio ensinado pelo Rei não reside apenas na indissolubilidade do matrimônio, mas também na premissa do amor e do perdão, fundamentos do evangelho de Cristo. Os homens, por sua vez, sentiram-se no direito de intervir, elaborando leis, estabelecendo novos conceitos de casamento e família, e inventando desculpas que flexibilizam e facilitam cada vez mais os divórcios. A finalidade era tentar resolver os problemas conjugais de uma maneira bem antiga: o divórcio. Contudo, o que conseguiram foram os mesmos resultados de sempre: dor, sofrimento e destruição. Não compreenderam que o problema real reside na dureza do coração.
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