O Rei e outras leis
Mateus 5.33 — Vocês também ouviram o que foi dito aos antigos: “Não faça juramento falso, mas cumpra rigorosamente para com o Senhor o que você jurou.” 34Eu, porém, lhes digo: não jurem de modo nenhum; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; 35nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser a cidade do grande Rei. 36Não jure pela sua cabeça, porque você não pode fazer com que um só cabelo fique branco ou preto. 37Que a palavra de vocês seja: Sim, sim; não, não. O que passar disto vem do Maligno. 38 — Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente.” 39Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém lhe der um tapa na face direita, ofereça-lhe também a face esquerda. 40Se alguém quer processar você e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. 41Se alguém obrigar você a andar uma milha, vá com ele duas. 42Dê a quem lhe pede e não volte as costas ao que quer lhe pedir emprestado. 43 — Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo.” 44Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês, 45para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus. Porque ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. 46Porque, se vocês amam aqueles que os amam, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? 47E, se saudarem somente os seus irmãos, o que é que estão fazendo de mais? Os gentios também não fazem o mesmo? 48Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu.
Continuando o capítulo anterior, Jesus Está fazendo a sua própria hermenêutica autorizada do A.T. especialmente, alguns aspectos da lei.
Contudo, faz-se necessário apegar-se aos princípios básicos, sem exagerar a importância das ilustrações apresentadas. O ensino fundamental é que podemos perceber uma nova perspectiva e compreensão da vida e das coisas. Em outras palavras, o crente não dispõe de um conjunto de regras fixas que devem ser seguidas para assegurar a salvação, mas aplicar cada princípio em cada situação específica de seu tempo. Faz-se necessário recordar dos princípios básicos:
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A lei não deve ser algo mecânico, mas sim, vivificante.
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A lei não deve ser concebida somente em termos de ações. Os
pensamentos, desejos e motivos são igualmente importantes.
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A lei é o caminho de Deus para o homem perdido e para a
santidade.
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O objetivo final de todo ensino bíblico é que os homens possam
conhecer o caráter de Deus.
Na primeira parte abordamos a ira e os relacionamentos; na segunda, o adultério, a imoralidade sexual e o divórcio. E nessa terceira parte vamos tratar de outros temas tais como: os juramentos, a vingança e os relacionamentos.
1. O rei e os juramentos
Mateus 5.33 — Vocês também ouviram o que foi dito aos antigos: “Não faça juramento falso, mas cumpra rigorosamente para com o Senhor o que você jurou.” 34Eu, porém, lhes digo: não jurem de modo nenhum; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; 35nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser a cidade do grande Rei. 36Não jure pela sua cabeça, porque você não pode fazer com que um só cabelo fique branco ou preto. 37Que a palavra de vocês seja: Sim, sim; não, não. O que passar disto vem do Maligno.
Mateus 5.33 — Vocês também ouviram o que foi dito aos antigos: “Não faça juramento falso, mas cumpra rigorosamente para com o Senhor o que você jurou.” A lei mosaica impunha restrições a juramentos irreverentes, ao uso indevido do nome do Senhor e à quebra de votos. Uma vez invocado o nome de Yahweh, o voto feito tornava-se uma obrigação, uma dívida a ser paga ao Senhor.
Desenvolveu-se um complexo sistema de casuísmo para avaliar o grau de compromisso da pessoa com o juramento, examinando a proximidade da relação do juramento com o nome do Senhor. Essa abordagem gerou uma proliferação de distinções extremamente detalhadas.
34Eu, porém, lhes digo: não jurem de modo nenhum; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; 35nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser a cidade do grande Rei. 36Não jure pela sua cabeça, porque você não pode fazer com que um só cabelo fique branco ou preto. Jesus aboliu os juramentos caso estes se tornassem pretextos para mentiras calculadas e falsidades casuísticas, desviando-se de seu propósito original de promover a veracidade.
Para evitar juramentos falsos, Ele propõe a abolição total do juramento, impedindo a possibilidade de falso testemunho (ou crime de perjúrio). Jesus sustenta que todo juramento está, de alguma forma, conectado a Deus e, portanto, é implicitamente feito em seu nome.
Ele argumenta que o céu, a terra, Jerusalém e até mesmo os fios de cabelo estão sob o controle e domínio de Deus, o que implica que qualquer coisa pela qual o homem jure está sob a propriedade divina.
37Que a palavra de vocês seja: Sim, sim; não, não. O que passar disto vem do Maligno.
Muitos grupos, como anabatistas e testemunhas de Jeová, interpretam esses versículos de forma estritamente literal, a ponto de se recusarem a fazer juramentos em tribunal.
Embora o zelo deles em seguir as Escrituras seja louvável, é provável que a interpretação do texto não seja totalmente precisa.
O objetivo contextual dessa passagem é ressaltar a importância da veracidade. Uma vez que o Antigo Testamento indica que juramentos não são usados de forma evasiva e a veracidade não é comprometida, não se pode concluir de imediato que a abolição absoluta do juramento seja exigida.
Além disso, os primeiros cristãos continuavam a fazer juramentos (Romanos 1:9; 2 Coríntios 1:23; 1 Tessalonicenses 2:5, 10; cf. Filipenses 1:8), e o próprio Jesus testemunhou sob juramento (Mateus 26:63, 64).
Qual o ensino prático de Jesus sobre o assunto: ele salientou o real intuito da lei como foi dada por Deus - na essência do que ela promove. Jesus chamou a atenção para todas as nossas conversações.
As nossas afirmativas devem limitar-se a um sim, sim; ou a um não, não. Jesus requer de seus seguidores um cuidado especial com seus juramentos e conversas. Eles devem falar a verdade pura, palavras sempre verazes em toda comunicação comum, conversa ou fala.
Não é verdade que quando alguém fala alguma mentira, logo nos escandalizamos e alguns até chegam a ficar revoltados com a situação. Mas pensamos que o caso é muito diferente quando proferimos aquilo que denominamos de “mentirinha”, a fim de escaparmos de alguma complicação. Aceitamos que a mentira dita para nós mesmos, é algo terrível; mas não pensamos da mesma maneira quando mentimos como cônjuge, filho, pai, amigo e irmão. O que dizer dos compromissos que assumimos diariamente? Em que pessoas juram lealdade e fidelidade até que a morte os separe para pouco tempo depois negar com suas atitudes tudo que sua boca falou.
Na qualidade de crentes, sempre deveríamos falar como quem vive constantemente na presença de Deus. Jesus, ao sofrer injustamente, não ameaçou e não usou palavras ofensivas. Devemos seguir a Jesus e ser semelhante a ele em todas as coisas. Lembremo-nos de que em tudo quanto sucede em nossas vidas, em toda a nossa comunicação com o próximo, tudo acontece na presença santa de Deus. E que tudo isso poderá determinar o que outras pessoas pensarão a respeito do Senhor.
2. O rei e a vingança
Mateus 5.38 — Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente.” 39Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém lhe der um tapa na face direita, ofereça-lhe também a face esquerda. 40Se alguém quer processar você e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. 41Se alguém obrigar você a andar uma milha, vá com ele duas. 42Dê a quem lhe pede e não volte as costas ao que quer lhe pedir emprestado.
Mateus 5.38 — Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente.” 39Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao perverso. A declaração citada por Jesus aparece nos trechos de Êx 21.24, Lv 24.20 e Dt 19.21. O principal intuito deste preceito mosaico era o de controlar os excessos de ira, violência e vingança.
Se qualquer malefício for feito contra nós, o revide faz parte de nosso instinto natural. Toda a tendência para a ira, para a cólera, para a retribuição e para retaliação encontra-se no âmago da natureza humana. E não somente isso, mas também queremos acrescentar mais do que é justo, nesse revide.
Esse, portanto, é o propósito da lei mosaica. O princípio da justiça tem de fazer parte do quadro, e a justiça nunca se mostra – ou não deveria se mostrar - excessiva em suas exigências. Deve haver correspondência entre a gravidade do crime e o castigo imposto. Contudo, o ponto mais importante da questão é que esse preceito não foi dado para os indivíduos, mas antes, foi dirigido aos juízes, que eram os responsáveis pela lei e pela ordem entre os indivíduos. Essa porção da lei visava os magistrados e não as pessoas em particular.
Jesus acrescentou quatro exemplos:
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● 39... se alguém lhe der um tapa na face direita, ofereça-lhe também a face esquerda.
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● 40Se alguém quer processar você e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.
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● 41Se alguém obrigar você a andar uma milha, vá com ele duas.
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● 42Dê a quem lhe pede e não volte as costas ao que quer lhe pedir emprestado.
Esta é uma das passagens para as quais as pessoas prontamente apelam, quando querem mencionar as virtudes dos cristãos. Pessoas que não são crentes falam de maneira muita vaga acerca desse ensino de Cristo. Interpretando-o como se indicasse um pacifismo inocente e que não deveria existir por parte dos cristãos qualquer apreço pela lei e ordem e que primariamente teríamos de submetermos as maiores afrontas transformando-nos em indivíduos suaves e meigos.
Então, o que está sendo ensinado aqui? Dentro do contexto das bem- aventuranças e das ilustrações anteriores, o que Jesus queria apresentar era a atitude que cada um individualmente deveria ter consigo mesmo.
O tempo todo ele está interessado pela questão do “eu”, pela nossa postura com nós mesmos. De maneira bem simples, ele dizia: “se vocês são crentes autênticos, então precisam morrer para vocês mesmos”.
O homem natural protege esse “eu” continuamente, e de todas as maneiras possíveis. E ele não faz assim somente quando é atacado ou quando alguma coisa lhe é subtraída; ele age assim também em relação aos seus bens materiais. O próprio “eu” ocupa o primeiro plano o tempo todo.
Existe uma tendência em nossos dias dos homens sempre exigirem e defenderem seus direitos legais – não estamos falando apenas de direitos civis – e adquiridos. As pessoas não se cansam de dizer que o verdadeiro problema do mundo atual é que todos estão falando sobre seus direitos, ao invés de falarem acerca dos seus deveres. As pessoas estão sempre exigindo dos outros que ofereçam a outra face, que cedam a capa e caminhem mais uma milha, mas não estão nem um pouco dispostas a fazerem o mesmo.
Em outras palavras, a preocupação de Jesus nesta passagem envolvia aquilo que somos, e não somente aquilo que fazemos. Todavia, aquilo que fazemos seja importante, porque indica aquilo que somos. O que importa não é tanto se alguém seja capaz de oferecer a outra face, porém no estado de quem é capaz de fazê-lo. Ninguém pode pôr em prática o que o Senhor ilustrou aqui, a menos que já tenha rompido definitivamente consigo mesmo.
Em resumo, se tentarmos viver essa virtude contando com nossas próprias forças, então estamos condenados ao mais completo fracasso, e isso antes mesmo de começarmos. Entretanto, munidos da bendita promessa e do oferecimento do Espírito de Deus, para que ele possa habitar e operar em nós, então a nossa esperança torna-se firme e inabalável. Deus tornou possível para todos os crentes, para todos os que confiam nele, o Espírito Santo com todo seu poder renovador e transmissor de energia para experimentarmos essa qualidade de vida.
3. O rei e os relacionamentos
Mateus 5.43 — Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo.” 44Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês, 45para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus. Porque ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. 46Porque, se vocês amam aqueles que os amam, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? 47E, se saudarem somente os seus irmãos, o que é que estão fazendo de mais? Os gentios também não fazem o mesmo? 48Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu.
Mateus 5.43 — Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo.” Em nenhum trecho do A.T. existe algum texto que possa respaldar o ensinamento mencionado por Jesus. Essas afirmações não podem ser encontradas justapostas em qualquer porção das Escrituras.
Do ponto de vista dos judeus, o próximo era outro israelita. Assim, eles argumentavam que os israelitas deveriam amar os outros israelitas e considerar as pessoas de outras nacionalidades como inimigos. Desse modo, destruíram deliberadamente o princípio básico da lei de Deus, que é esse grande princípio do amor.
44Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês, 45para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus... Um estudo acadêmico muito recente aponta os "inimigos" como os perseguidores da igreja de Mateus. Contudo, é improvável que o próprio Mateus tivesse a intenção de ser tão restritivo e anacrônico.
A oração constitui uma manifestação de amor pelos inimigos; orar por um inimigo e amá-lo se reforçam mutuamente. O amor intensifica a oração, e a oração, por sua vez, intensifica o amor.
45... Porque ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Os teólogos conectam o amor de Deus expresso nos versículos 44 e 45 com
o conceito de Sua "graça comum", que é o favor imerecido e gracioso que Ele estende a todos os seres humanos, sem fazer qualquer distinção.
Mateus 46Porque, se vocês amam aqueles que os amam, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? 47E, se saudarem somente os seus irmãos, o que é
que estão fazendo de mais? Os gentios também não fazem o mesmo? É evidente, a partir desses dois versículos, que se espera dos seguidores de Jesus um nível de vida e de amor que transcende os padrões estabelecidos ao seu redor.
John Stott afirma: “A vida da antiga (caída) humanidade baseia-se em justiça bruta, em vingar injúrias e em retornar favores. A vida da nova (redimida humanidade baseia-se no amor divino, em recusar se vingar e apenas em devolver mal com bem".
O que está envolvido nesta instrução do Senhor? Necessariamente, antes de tudo devemos pensar sobre nossa maneira de tratar os outros, o que jamais deveria depender do que eles são, ou do que eles têm feito a nós.
O que se transforma em um grande desafio. Nesse mundo, onde somos defrontados com inúmeros problemas e dificuldades acerca dos relacionamentos, devemos ser semelhantes a Jesus. Tratar as pessoas como ele mesmo as trata.
Deus não abençoa somente os esforços dos trabalhadores crentes, ele abençoa também os trabalhadores injustos, maus e iníquos. Deus se deixa governar pelo seu próprio amor, o qual é absolutamente desinteressado. Em outras palavras, esse amor não depende de qualquer coisa que exista em nós mesmos, pois manifesta-se a despeito de nós. O que impeliu Deus foi seu próprio eterno coração amoroso.
Esse princípio é tremendamente importante, porquanto, conforme ensinou o Senhor Jesus, essa é a forma de amor que devemos ter e manifestar para com as outras pessoas. Todavia, se começarmos a examinar a nós mesmos veremos, que uma das piores coisas a nosso respeito é que as nossas vidas são demasiadamente governadas por outras pessoas, pelo que fazem e pensam sobre nós. Essa é uma daquelas coisas que contribui para a vida ser repleta de tanta miséria.
Portanto, devemos amar as pessoas não pelo que elas podem representar para nós mesmos, ou porque as nossas ações sejam capazes de transformar essa pessoa redimindo-a de seus pecados. Pelo contrário, cumpre-nos agir assim por uma única razão, porque podemos exibir para elas o amor de Deus. O crente é o que é pela graça amorosa de Deus. Não porque tenha nascido ou sido educado diferente das outras pessoas, mas porque Deus o tornou assim. E aquilo que o amor do Senhor fez por ele pode fazer pelas outras pessoas também.
Finalmente, é necessária uma palavra de consolo. Pois a menos que exista um equívoco profundo, cada pessoa que se defronta com essas realidades espirituais sem dúvida sente-se, agora mesmo, condenada. Não devemos nos sentir menos cristãos, se porventura não estivermos vivendo plenamente esse tipo de vida. Pelo contrário, o sentimento deve ser de absoluta inadequação e uma boa dose de disposição de nos tornarmos cada vez mais parecidos com Cristo. Como ele mesmo disse: “sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”.
Conclusão
O que leva um crente a fazer mais do que aquilo que os outros fazem? É toda sua perspectiva do pecado e do amor de Deus. O crente sabe que ele estava completamente condenado e destituído de esperança. Por outro lado, ele experimentou a graça gratuita de Deus manifestada em Jesus Cristo. Sabe que Deus enviou seu filho ao mundo para que morresse na cruz em seu lugar. Todas essas verdades modificaram a sua atitude para com Deus e para com os seus semelhantes. Ele vive tudo por causa do grande amor de Deus, que direito tem de exigir alguma coisa de alguém?
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