O Rei e o jejum



Mateus 6.16 — Quando vocês jejuarem, não fiquem com uma aparência triste, como os hipócritas; porque desfiguram o rosto a fim de parecer aos outros que estão jejuando. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa. 17Mas você, quando jejuar, unja a cabeça e lave o rosto, 18a fim de não parecer aos outros que você está jejuando, e sim ao seu Pai, em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa.

O texto apresenta o ensino de Jesus sobre o jejum, uma prática de destaque na devoção judaica e que poderia ser mais valorizada pelos cristãos, sendo até chamada de "jejum engorda alma" pelos puritanos.

O Rei ressalta o princípio fundamental da vida piedosa:

Mateus 6.1 — Evitem praticar as suas obras de justiça diante dos outros para serem vistos por eles; porque, sendo assim, vocês já não terão nenhuma recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus.

O objetivo principal da instrução de Jesus é claro e direto: evitar qualquer exibição pública ou ostentação em conexão com a prática do jejum. O Rei instrui seus seguidores a manterem os atos exteriores de higiene e adorno, agindo em períodos de jejum como agem em outros momentos, para que a devoção permaneça um ato pessoal e discreto.

Spurgeon argumenta: “Você pode jejuar, e esse jejum pode ser descoberto, mas que não seja a sua intenção parecer aos homens que jejua. Jejue da vaidade, da ambição, do orgulho e da autoglorificação. Jejue em segredo diante daquele que vê em secreto. Jejum secreto terá uma recompensa pública da parte do Senhor, mas o que é feito por mera ostentação não será contado nos livros d'Ele.”

Qual é o verdadeiro valor do jejum se o propósito da instrução de Jesus é remover a prática da performance religiosa e da ostentação hipócrita?


O ensino do rei sobre o jejum

O ensinamento de Jesus se divide, essencialmente, em dois pontos: primeiramente, ele expõe a hipocrisia da ostentação espiritual; em seguida, ele corrige e direciona seus seguidores para a conduta correta.

Mateus 6.16 — Quando vocês jejuarem, não fiquem com uma aparência triste, como os hipócritas; porque desfiguram o rosto a fim de parecer aos outros que estão jejuando. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa.

O jejum é abordado em diversas passagens bíblicas como uma prática pessoal ou coletiva com variados propósitos, sendo exemplos notáveis os de Ester, Daniel, Isaías e Paulo. Contudo, o jejum é duramente criticado, já no Antigo Testamento, quando se torna meramente formal e hipócrita, como no caso em que as pessoas jejuavam, mas se recusavam a compartilhar comida com os necessitados.

Isaías 58.1“Grite a plenos pulmões, não se detenha! Erga a voz como a trombeta e anuncie ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó, os seus pecados. 2Mesmo neste estado, ainda me procuram dia a dia, têm prazer em saber os meus caminhos. Como povo que pratica a justiça e não deixa o direito do seu Deus, perguntam-me por sentenças justas, têm prazer em se aproximar de Deus, 3dizendo: ‘Por que jejuamos, se tu nem notas? Por que nos humilhamos, se tu não levas isso em conta?’ Acontece que, no dia em que jejuam, vocês cuidam dos seus próprios interesses e oprimem os seus trabalhadores. 4Eis que vocês jejuam apenas para discutir, brigar e bater uns nos outros; jejuando assim como hoje, o clamor de vocês não será ouvido lá no alto. 5Seria este o jejum que escolhi: que num só dia a pessoa se humilhe, incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? É isso o que vocês chamam de jejum e dia aceitável ao Senhor? 6Será que não é este o jejum que escolhi: que vocês quebrem as correntes da injustiça, desfaçam as ataduras da servidão, deixem livres os oprimidos e acabem com todo tipo de servidão? 7Será que não é também que vocês repartam o seu pão com os famintos, recolham em casa os pobres desabrigados, vistam os que encontrarem nus e não voltem as costas ao seu semelhante?

O jejum pode exibir uma religiosidade hipócrita e construir uma reputação de piedade exterior. O indivíduo podia adotar uma aparência triste e desfigurada — talvez por negligenciar a higiene pessoal (como não se lavar ou fazer a barba), cobrir a cabeça com cinzas (símbolo de profunda contrição ou autonegação) ou evitar o uso habitual de óleo — com o objetivo de demonstrar intensa angústia. O problema central é a ausência de contrição genuína; esses hipócritas buscavam intencionalmente a atenção e o louvor dos outros, e era somente isso que conseguiam.

17Mas você, quando jejuar, unja a cabeça e lave o rosto, 18a fim de não parecer aos outros que você está jejuando, e sim ao seu Pai, em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa.

Longe de proibir o jejum, Jesus assume que seus seguidores o praticarão, assim como orarão e darão esmolas.

Sua condenação recai sobre a ostentação no jejum. Ele chega a proibir qualquer sinal visível de que um jejum foi iniciado. Isso ocorre porque o coração humano tem motivos tão confusos que o anseio por buscar a Deus pode ser enfraquecido pelo desejo de aprovação humana, o que corrompe a prática do jejum.

Lavar-se e ungir-se com óleo eram atos comuns de higiene pessoal. O ponto do versículo 18 é evitar chamar a atenção para si, seja por uma aparência de tristeza ou por uma alegria exagerada. Jesus preza pela discrição, não pelo engano. O Pai, que tudo vê em segredo, recompensará.

A hipocrisia não é exclusiva dos fariseus. A solução não é abolir o jejum, mas sim praticá-lo dentro de uma estrutura bíblica e com uma sincera busca pela comunhão com Deus.


O jejum bíblico

Qual é o papel do jejum na vida do crente? Para responder essa questão vamos começar analisando o ensino bíblico, depois o propósito da prática do jejum na vida diária do cristão.

O ensino bíblico acerca do jejum.

Pela Lei de Moisés, os israelitas foram instruídos a jejuar anualmente (Lv 16.29-31). Contudo, em momentos posteriores da história de Israel, o povo, em ocasiões de circunstâncias nacionais específicas (como nos exemplos de Ester e Daniel), instituiu jejuns adicionais. Tais jejuns eram frequentemente observados com um espírito de humilhação e confissão de pecados.

No N. T., observamos que os fariseus e líderes religiosos da época de Jesus tinham o costume de jejuar duas vezes por semana (Lucas 18:12), embora essa prática não tivesse sido diretamente ordenada por Deus.

Ao analisar os ensinamentos de Jesus, percebemos que, apesar de ele não ter estabelecido um mandamento direto para o jejum, ele o endossava indiretamente. Ele afirmou: "Virão dias quando o noivo lhes será tirado; então jejuarão" (Mateus 9:15b).

Ao analisarmos a doutrina e a prática da igreja primitiva, notamos que o jejum era um hábito dos apóstolos. A Bíblia relata, por exemplo, que Paulo e Barnabé foram enviados em missão após dedicarem um

tempo ao jejum e à oração (Atos 13:3). Além disso, a história da igreja atesta que, em todas as épocas e lugares, homens e mulheres de fé não apenas creram na prática do jejum, mas também adotaram esse hábito espiritual em suas vidas.

O propósito do jejum.

O jejum, segundo a Bíblia, é a decisão de se abster voluntariamente de alimentos ou outros prazeres, por períodos definidos, motivada por razões e objetivos espirituais. Seu propósito principal é glorificar a Deus e buscar comunhão com Ele, expressar dor e vergonha pelas transgressões à santa lei de Deus, e clamar por um aumento da sua graça, visando intensificar o amor pelas realidades espirituais e a edificação.

John Gill (importante teólogo batista particular puritano) afirmou sobre o jejum:

Cristo permite o jejum, mas o que é de um tipo bem diferente daquele dos judeus, que não consiste em uma abstinência externa de comida, outras conveniências da vida e refrescos da natureza; mas na abstinência do pecado, no reconhecimento e confissão dele, além de no exercício da fé e esperança em Deus...

Será que o jejum está restrito aos alimentos? Lloyd Jones disse “não somente deve confinar-se à questão de alimentos sólidos e líquidos; pelo contrário, o jejum, na realidade, deveria incluir a abstinência de qualquer coisa, legítima em si mesma, tendo-se em vista algum propósito espiritual especial.”

Ainda que alguns preferem usar a nomenclatura de “voto”, o propósito segue o mesmo: abster-se para fins espirituais. Temos um exemplo em Atos:

Atos 18.18Paulo ficou ainda muitos dias em Corinto. Por fim, despedindo-se dos irmãos, navegou para a Síria, levando em sua companhia Priscila e Áquila. Antes de embarcar, rapou a cabeça em Cencreia, porque tinha feito um voto.


Praticando o Jejum

Existem maneiras incorretas de praticar essa disciplina espiritual:

1. O jejum não deve ser praticado de forma mecânica ou como um fim em si mesmo. Expressões como: "Bem, agora que me tornei crente, preciso jejuar em determinado dia e época do ano, pois

isso faz parte da religião cristã", demonstram uma abordagem meramente legalista.

2. Jejuar com a expectativa de obter resultados diretos e imediatos, como se o jejum fosse uma ferramenta para "conquistar" certas bênçãos. A lógica por trás dessa atitude é muitas vezes expressa como: "Se eu jejuar, receberei a bênção e o livramento" ou "quem quiser certas vitórias, então que jejue".

Quando se adota a mentalidade de "porquanto faço isto, obtenho aquilo", o foco se desloca da verdade para o pragmatismo.

Depois de analisarmos a forma incorreta de jejuar, podemos agora considerar a atitude adequada para a prática do jejum.

  1. O Jejum como meio, não fim. O jejum deve ser visto sempre como um instrumento para alcançar um objetivo espiritual, e não como um fim em si mesmo.

  2. Motivação pessoal e adoração. O jejum não deve ser motivado por regras ou normas, mas sim por uma necessidade específica de intensa concentração na adoração e busca a Deus.

  3. Crescimento espiritual. O jejum é uma das disciplinas espirituais que contribuem para o amadurecimento e crescimento da vida espiritual do crente.

  4. Implicações além da abstinência. Jejuar vai além da simples interrupção de ingestão de alimentos ou bebidas por um período. Envolve separar tempo dedicado à busca de Deus por meio da oração.

  5. Ação coletiva da Igreja. É permitido e apropriado que a Igreja estabeleça e promova períodos de oração e jejum quando julgar que as circunstâncias e necessidades espirituais o exijam.


Conclusão

O jejum deve ser uma prática regular, moderada e sem exageros, reservando tempo para oração e a busca do Senhor. É um período para examinar o coração, confessar pecados, orar pela própria vida e pela dos outros, e buscar comunhão com Deus. O foco principal é o quebrantamento e a aflição da alma. Ore para que Deus o livre de qualquer sentimento de superioridade espiritual e evite que o jejum se torne uma prática meritória.


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