O rei e a oração
Mateus 6.5 — E, quando orarem, não sejam como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos pelos outros. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa. 6Mas, ao orar, entre no seu quarto e, fechada a porta, ore ao seu Pai, que está em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa. 7E, orando, não usem vãs repetições, como os gentios; porque eles pensam que por muito falar serão ouvidos. 8Não sejam, portanto, como eles; porque o Pai de vocês sabe o que vocês precisam, antes mesmo de lhe pedirem. 9 — Portanto, orem assim: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; 11 o pão nosso de cada dia nos dá hoje; 12 e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores; 13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!” 14 — Porque, se perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês, que está no céu, perdoará vocês; 15se, porém, não perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês não perdoará as ofensas de vocês.
O capítulo 6 de Mateus pode ser dividido em duas partes principais. A primeira fala sobre a nossa vida espiritual e o nosso relacionamento com Deus. A segunda trata da nossa vida material, de como o cristão vive neste mundo.
Nesta primeira parte, quando a ênfase está na porção estritamente espiritual que envolve a vida cristã. O Rei ressalta o princípio fundamental da vida piedosa:
Mateus 6.1 — Evitem praticar as suas obras de justiça diante dos outros para serem vistos por eles; porque, sendo assim, vocês já não terão nenhuma recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus.
O cristão deve viver de modo que a qualidade de sua vida leve as pessoas a glorificarem a Deus. É fundamental, porém, que ele se lembre de que nunca deve agir com o objetivo de chamar a atenção para si mesmo.
Jesus oferece três ilustrações desse princípio que envolve as questões de esmolas, da oração e do jejum. Anteriormente, discutimos a respeito do serviço (esmolas) e nesse ponto, vamos lidar com a oração.
A oração é indispensável e vital para todos os cristãos. Muitos crentes chegam a afirmar que orar é como respirar. É por isso que a luta de todos nós com o tema é tão intrigante. O problema não é o quanto sabemos acerca do assunto, mas como tratamos a oração em nossas vidas. Nosso intuito é fazer um panorama bem completo acerca da matéria e absorver princípios norteadores definitivos.
O Rei e a oração
A oração sempre foi uma matéria complicada, haja vista os discípulos terem pedido para Jesus os ensinar como deveriam orar (Lc 11.1).
Mateus 6.5 — E, quando orarem, não sejam como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos pelos outros. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa.
Jesus pressupõe que seus discípulos oram, mas condena a oração hipócrita. A oração ocupava um lugar de destaque na vida judaica, seja na sinagoga (onde alguém da congregação podia ser solicitado a orar publicamente, de pé) ou, em certas ocasiões, nas ruas. No entanto, o fator crucial não era o local ou a postura de "estar de pé". O motivo é o que realmente importa: "serem vistos pelos outros".
Jesus oferece a seguir duas advertências:
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6Mas, ao orar, entre no seu quarto e, fechada a porta, ore ao seu Pai, que está em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa.
Jesus não proibiu toda oração pública, visto que a igreja primitiva orava publicamente (At 1.24; 3.1; 4.24-30). O contraste entre público e privado serve como um bom indicador do motivo por trás da oração. A questão não é a piedade em si, mas a busca por uma reputação piedosa. É crucial combater essa hipocrisia de forma radical, optando por orar em um local "privado".
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7E, orando, não usem vãs repetições, como os gentios; porque eles pensam que por muito falar serão ouvidos. 8Não sejam, portanto, como eles; porque o Pai de vocês
sabe o que vocês precisam, antes mesmo de lhe pedirem.
Da mesma forma, Jesus não condenava todas as orações longas ou repetitivas. Ele mesmo fazia orações extensas (Lc 6.12; Jo 17), repetia-se em suas súplicas (Mt 26.44) e usava parábolas para incentivar seus discípulos a "orar sempre e nunca desanimar" (Lc 18.1). O ponto central de Jesus era que seus seguidores deveriam evitar orações vãs e mecânicas, feitas sob a falsa crença de que o mero comprimento ou repetição tornaria a oração eficaz. Esse "balbucio sem reflexão" é essencialmente pagão, pois se baseia na suposição de que os deuses pagãos são influenciados por fórmulas e repetições. Contudo, o Deus Pai, pessoal, a quem os cristãos oram, não precisa ser informado das necessidades pessoais deles (v. 8).
9 — Portanto, orem assim: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; 11 o pão nosso de cada dia nos dá hoje; 12 e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores; 13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!”
Jesus oferece um modelo de oração para os seus discípulos. Trataremos do assunto a seguir.
14 — Porque, se perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês, que está no céu, perdoará vocês; 15se, porém, não perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês não perdoará as ofensas de vocês.
A importância crucial do perdão na comunidade de discípulos é salientada pela repetição nestes versículos, que reforçam o conceito expresso no versículo 12.
O que é oração
Só porque algo é crucial na vida de alguém, não quer dizer que seja natural. Do mesmo modo, com a oração, por ser essencial na vida dos crentes, não significa que seja instintivo.
Logo, a primeira tarefa é definir o que é oração, para depois, pensar em suas implicações. Inicialmente, vamos listar as conceituações mais comuns sobre oração. A designação mais utilizada sobre oração é: falar com Deus – “fale com Deus com sinceridade como se estivesse falando com um amigo. Apenas fale e ele vai te ouvir” muitos dizem. Outra caracterização da oração seria: pedir algo a Deus. Nesse caso, a oração é apresentar nossos pedidos a Deus. Alguns outros pensam na oração como maneira de alinhar nossas vontades e desejos aos propósitos de Deus. Qual é o problema com essas definições? elas estão erradas? Não, todavia, elas descrevem os aspectos secundários da oração.
A questão prevalece: O que é oração? Curiosamente, a Bíblia nunca definiu a oração em termos restritos. Contudo, é um padrão comum nas Escrituras que, antes de orar, a pessoa seja encorajada pela Palavra de Deus a refletir sobre quem Deus é. A oração, portanto, é uma resposta a revelação do caráter e da natureza de Deus.
Nesse sentido, torna-se indispensável que todos os que se acheguem a Deus em oração conheçam o seu caráter e a sua natureza - seus atributos e os seus feitos maravilhosos. Quem é Deus, como seus atributos se harmonizam, qual a sua linguagem e a revelação de seu poder e autoridade. Outrossim, devemos nos familiarizar com as suas promessas. Com as afirmações objetivas de sua vontade e de seus propósitos. Tudo isso, está revelado nas páginas da Bíblia.
Orando como o Senhor nos ensinou
● O rei - Um modelo de oração
Mateus 6.9 — Portanto, orem assim: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; 11 o pão nosso de cada dia nos dá hoje; 12 e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores; 13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!”
Algumas pessoas afirmam que não existe uma forma correta de orar. Se com isso estão afirmando que não existe um manual de oração, eles acertaram.
Entretanto, se querem dizer que podemos orar de qualquer forma, nesse caso, estão equivocados. Quando Jesus foi questionado sobre o assunto, ele não se esquivou da resposta ou não ofereceu uma solução. Também, não disse que a sinceridade era suficiente. Ele ensinou seus discípulos a orarem.
Inicialmente, é notável que Jesus não estabeleceu os métodos que comumente as pessoas estão habituadas. Ele não disse que deveríamos gastar horas a fio em oração. Obviamente, que orar por muito tempo não tem problema, todavia, não torna a oração mais eficaz. Além do mais, o fervor da oração não significa falar com voz empostada ou alterada. Também, não significa ficar de joelhos, subir ao monte ou orar em determinados horários. Outrossim, a oração dos crentes deve se diferenciar das preces feitas por religiosos, que transformam suas orações em um ritual de sacrifício a sua divindade.
Então, existe um modelo de oração? Objetivamente, sim. Porém, no modelo de oração apresentado por Jesus, ele procura corrigir as nossas prioridades e motivações.
1. Na primeira parte da oração, o nosso Senhor tratou de ressaltar o caráter, a natureza, os propósitos e os feitos de Deus. Ele disse:
“Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu...”.
De maneira prática, quando formos orar, a primeira tarefa é saber exatamente a quem estamos nos dirigindo em oração. Nosso Deus é pessoal, envolvido com a sua criação e todo poderoso. Estamos diante do governador do universo. Perante o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
2. A seguir, Jesus nos ensina que podemos apresentar ao Pai os nossos pedidos. Não erramos quando pedimos, ao contrário, somos incentivados a pedir. Jesus pediu:
“...o pão nosso de cada dia nos dá hoje;”
Deus sabe que os homens são completamente incapazes. Mesmo as suas maiores e mais importantes realizações são resultado direto e objetivo de sua graça. Portanto, em seu amor e misericórdia, nos ofereceu uma oportunidade de levar a ele as nossas petições.
3. O reconhecimento e o arrependimento de nossos pecados não podem ficar de fora da oração. Jesus incluiu este aspecto na oração.
“...perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores; 13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal...”
Dois pontos precisam ser evidenciados neste artigo da oração:
Primeiro, o Senhor não está colocando uma condição para recebermos o perdão de Deus. Somos perdoados apenas e somente por sua graça. Ele está ressaltando uma parte do caráter do crente, eles naturalmente, perdoam. Segundo, o arrependimento - e não o orgulho - devem estar presentes quando contemplamos a majestade de Deus. Somente o Senhor
pode nos livrar da tentação e perdoar os nossos pecados. Deus não leva em conta a nossa força e a nossa capacidade - elas não podem nos livrar do mal.
4. Ele finaliza a oração modelo com uma nota de louvor e adoração. Uma doxologia que acompanha todos os crentes ao longo da história.
“... [pois teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!”
Começamos a oração declarando a glória de Deus e terminamos no mesmo ponto. Quando oramos, estamos nos agarrando como náufragos que se agarram ao seu colete salva-vidas ao poder e as promessas de Deus. Ninguém pode deter os seus planos. Ninguém pode mudar seus desígnios. Ele é o rei, poderoso e glorioso. Amém!
Estes quatro artigos da oração modelo ensinada por Jesus, também evidencia o total das orações das Escrituras. Adoração, petição, confissão e louvor são encontrados separados em outros lugares da Bíblia. Jesus juntou tudo em uma oração simples e matricial que deve ser seguida por todos os crentes
● O reino - orando juntos
Um aspecto importante que passa despercebido por muitos, é o componente comunitário da oração nas Escrituras.
Talvez, motivados pelo ensino de Jesus sobre a hipocrisia dos fariseus, em que o nosso Senhor recomenda que as pessoas devem entrar no seu quarto e orar de porta fechada (Mt 6.6). Alguns pensam na oração em termos muito particulares. Ainda assim, o grande ensino da Bíblia apresenta a prática muito mais coletiva do que a individual.
A Palavra de Deus deve ser o cerne de nossa vida comunitária e das nossas reuniões. Ouvimos a palavra lida, cantada e pregada, logo, em reciprocidade, oramos. Temos em nossa comunidade dois momentos intencionais de oração coletiva: a oração litúrgica e o embarque de oração. O modelo da oração de Jesus nos oferece quatro tipos de orações que devemos fazer, e estes devem servir de modelo para nosso tempo de oração coletiva:
1. Adoração.
2. Confissão.
Se adoramos corretamente, a confissão se torna o reflexo da nossa alma. “Se Deus é bom, quem eu sou?”. Quando refletimos acerca da santidade e da bondade de Deus, nossos pecados ficam evidentes. Ele providenciou tanto a punição para os culpados quanto o perdão para o bem de seu povo. A oferta de perdão nos anima a sermos francos a respeito das nossas falhas. Quando ouvimos os outros membros da nossa igreja confessarem seus pecados, devemos dizer para nós mesmos: “eu também". Entretanto, a confissão deve ser honesta e singela sem transformar o momento de confissão em um confessionário.
3. Gratidão.
Com a oração de adoração nos lembramos de quem Deus é; na confissão recordamos quem nós somos, e então, percebemos que ele não é obrigado a fazer nada por nós. Ele observa dos céus e faz o que lhe agrada; tem prazer em nos fazer bem, a despeito de nosso pecado. Isso nos fornece todos os motivos para agradecer.
A única reação adequada à graça é a gratidão. A graça não é motivo para exigências, mas para louvor. O coração grato sempre exclama: “porque Deus fez isso por mim?”. O coração reivindicador diz: “porque Deus não faz isso por mim?”.
Com a oração de ação de graças, nós que reclamamos somos chamados a falar das grandes bênçãos de Deus, nos lembrar de que temos mais do que merecemos e declarar a esperança nas promessas do Senhor. A oração de ação de graças faz o brilho da glória dele ofuscar os nossos problemas tão pequenos. Quando presenciamos e testemunhamos o que Deus tem feito na vida de outros irmãos nosso coração é reorientado: do desespero e aflição para confiança e esperança.
Por fim, cada oração deve estar ligada diretamente aos blocos litúrgicos do culto. As orações funcionam como o sangue que circula durante os momentos do culto, fazendo com que a graça de Deus contorne toda a congregação. Destacamos isso em cada aspecto da nossa liturgia. Como igreja, queremos que a oração seja coletiva. Queremos ressaltar a multiplicidade de pessoas falando com Deus de várias maneiras. Queremos que a nossa comunidade e os nossos visitantes percebam que a oração significativa pode acontecer de diversas formas. Tudo isso é possível quando se enfatiza a oração em todas as nossas reuniões.
Conclusão
Quando Cristo nos ensina a orar, ele faz isso tendo em mente o mundo arruinado pelo pecado. Assim como a palavra revelada de Deus, a oração oferece um portal pelo qual podemos escapar desse mundo e experimentar o mundo de Deus. Em resumo, provamos a glória de Deus de um jeito singular quando participamos juntos da adoração coletiva mediante a oração.
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