O Rei e o discipulado
Mateus 7.13 — Entrem pela porta estreita! Porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela. 14Estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que o encontram. 15 — Cuidado com os falsos profetas, que se apresentam a vocês disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. 16Pelos seus frutos vocês os conhecerão. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de ervas daninhas? 17Assim, toda árvore boa produz frutos bons, porém a árvore má produz frutos maus. 18A árvore boa não pode produzir frutos maus, e a árvore má não pode produzir frutos bons. 19Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e jogada no fogo. 20Assim, pois, pelos seus frutos vocês os conhecerão. 21 — Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor!” entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. 22Muitos, naquele dia, vão me dizer: “Senhor, Senhor, nós não profetizamos em seu nome? E em seu nome não expulsamos demônios? E em seu nome não fizemos muitos milagres?” 23Então lhes direi claramente: “Eu nunca conheci vocês. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal.”
Ao concluir o Sermão do Monte, o Rei nos convida a uma avaliação profunda e sincera sobre como aplicamos seus ensinamentos. Jesus nos apresenta uma verdade direta e urgente: o discipulado não se resume a conceitos intelectuais, mas se manifesta como um modo de viver.
A sua abordagem se fundamenta em uma perspectiva escatológica. Ao tratar do nosso destino eterno, Jesus enfatiza que a jornada cristã vai além de autoafirmação e escolhas fáceis; ela exige, essencialmente, compromisso, dedicação e santidade.
O ponto central não é a admiração pelas palavras do Rei e seus ensinos, mas a prática que custa a própria vida. É como se o Rei estivesse nos olhando nos olhos e perguntando: "Você ouviu o que eu disse, entendeu o propósito e sentiu o peso do que propus; agora, o que você vai fazer com isso?".
O rei nos convida a examinar a nossa caminhada, estabelecendo critérios claros para decidirmos e nos comprometermos de verdade com o crescimento espiritual. Será que estamos prontos para assumir um compromisso real e verdadeiro com o Rei?
O Rei propôs a autoavaliação
O encerramento do Sermão do Monte é marcado por advertências fundamentais, estruturadas em pares contrastantes: os dois caminhos, as duas árvores e as duas declarações.
1 - Dois caminhos. 7.13-14
Mateus 7.13 — Entrem pela porta estreita! Porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela. 14Estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que o encontram.
De maneira implícita, a cruz do Rei começa a lançar sua sombra sobre os seus seguidores. A ideia dos "dois caminhos" é um tema comum na Bíblia, como vemos no Salmo 1. O cenário é direto: existem duas portas, dois caminhos, dois grupos de pessoas e dois destinos. Seguir a Jesus é escolher um caminho estreito que exige renúncia e muitas vezes enfrenta a oposição de um mundo que não aceita essa escolha.
No Reino de Deus, a verdade e a justiça não são decididas pela maioria. Não encontramos o caminho certo seguindo a opinião geral ou apenas o que achamos correto individualmente; a palavra final é sempre de Deus.
Por fim, Jesus não nos pede para enfrentar esse caminho difícil como se a salvação fosse um prêmio pelo nosso próprio esforço. A Bíblia é clara: somos salvos unicamente pela graça de Deus através de Jesus, e não pelo que fazemos. Assim, o modo como trilhamos o caminho serve como uma confirmação de que estamos seguindo na direção da salvação.
2 - Duas árvores. 7.15-20
15 — Cuidado com os falsos profetas, que se apresentam a vocês disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes.
O alerta contra falsos profetas parte do princípio de que nem todos são genuínos. Sem dúvida, Jesus tinha profundo conhecimento dos registros do Antigo Testamento de falsos profetas anteriores (Jr 6.13-15). Com certeza, os cristãos primitivos enfrentaram falsos profetas que Jesus predisse (At 20.29).
Muitas vezes, quem se opõe ao evangelho disfarça essa intenção, apresentando-se como cristão. Como eles usam uma linguagem
correta e demonstram piedade à primeira vista, não são facilmente diferenciados dos verdadeiros, tornando vital aprender a distinguir as ovelhas dos lobos. Os crentes devem ser cuidadosos não somente com o seu caminho, mas, também, com os seus líderes.
16Pelos seus frutos vocês os conhecerão. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de ervas daninhas? 17Assim, toda árvore boa produz frutos bons, porém a árvore má produz frutos maus. 18A árvore boa não pode produzir frutos maus, e a árvore má não pode produzir frutos bons.
A forma de avaliar é pelo "fruto" do indivíduo — tudo o que a pessoa diz e faz revela quem ela é (Tg 3.12). A ideia de que "a árvore boa produz bons frutos, e a ruim, maus frutos" oferece um critério preciso, ainda que aplicar esse teste exige paciência. Pode-se até fingir viver conforme as normas do Reino por um tempo, mas, eventualmente, as atitudes revelam a verdadeira natureza de cada um.
19Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e jogada no fogo. 20Assim, pois, pelos seus frutos vocês os conhecerão.
Não cabe aos crentes individualmente queimar as árvores, mas, conhecer é a nossa tarefa. Jesus orienta que a comunidade deve se proteger desses "lobos" através do ensino verdadeiro e da disciplina. Embora o texto não detalhe o tipo de dano ou erro específico que eles promovem, fica claro que eles colocam seus seguidores em risco.
3 - Duas afirmações. 7.21-23
Se os versículos 15-20 lidam com falsos profetas, os versículos 21-23 tratam de falsos seguidores. Talvez alguns seguidores tenham se tornado falsos por causa dos falsos profetas.
21 — Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor!” entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
O critério de entrada no Reino dos Céus é a obediência à vontade do Pai. Jesus, ao usar pela primeira vez a expressão "meu Pai" neste Evangelho, coloca-se como o revelador autoritativo da vontade divina. Ele não apenas assume a Lei do Antigo Testamento, mas a cumpre, estabelecendo a natureza de sua continuidade.
22Muitos, naquele dia, vão me dizer: “Senhor, Senhor, nós não profetizamos em seu nome? E em seu nome não expulsamos demônios? E em seu nome não fizemos muitos milagres?”
É fundamental compreender que as obras desses "falsos pretendentes" — profetizar, expulsar demônios e realizar milagres — não eram necessariamente falsas em sua execução, mas insuficientes em sua essência. O drama central reside na desconexão entre o agir e o ser. Isso nos levanta uma questão alarmante: quão perto se pode estar da realidade espiritual enquanto se permanece um estranho ao conhecimento pessoal de Cristo?
23Então lhes direi claramente: “Eu nunca conheci vocês. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal.”
No fim, a decisão sobre a entrada ou o banimento do Reino no último dia cabe exclusivamente a Jesus. Ele não julga apenas por ações externas, mas pelo conhecimento relacional de seus súditos.
O chamado ao discipulado
Mateus 7.23 Então lhes direi claramente: “Eu nunca conheci vocês. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal.”
Podemos dizer que, seguir Jesus significa, que o discípulo entrou em um relacionamento pessoal e salvador com ele - Conhecer e ser conhecido pelo Rei. O seguidor está “em Cristo”, como afirma a Bíblia. Foi unido a ele por meio da nova aliança no sangue dele.
Marshall e Payne no livro “Projeto Videira” definiram discípulo de Cristo como: “Um pecador perdoado que está aprendendo Cristo em arrependimento e fé”. No clássico da literatura cristã “Discipulado” Bonhoeffer faz uma longa e profunda análise do que significa ser discípulo:
Portanto, o chamado ao discipulado é o compromisso exclusivo com a pessoa de Jesus Cristo, a subversão de todo legalismo por meio da graça daquele que chama. É o chamado da graça, e também o mandamento da graça. Vai além do antagonismo entre lei e evangelho. Cristo chama, o discípulo simplesmente o segue. Isso é graça e mandamento unidos em uma coisa só. “E andarei com largueza, pois me empenho pelos teus preceitos" (Sl 119.45). O discipulado é compromisso com Cristo; porque Cristo existe, tem de haver discipulado.
Ainda sobre o assunto, Bonhoeffer acrescenta:
O que sabemos sobre o conteúdo do discipulado? “Segue-me! Vinde após mim!” Isso é tudo. Segui-lo parece algo sem conteúdo. Não é algo que de fato pode ser visto como programa de vida cuja realização faça sentido. Não é, igualmente, um objetivo ou um ideal a ser alcançado. Para os padrões humanos, não é algo que mereça sacrifício ou pela qual valha a pena investir a vida.
Vivendo como discípulo de Cristo
Discipulado é o termo que utilizamos para designar o ato de seguir a Cristo. Mas o que representa ser discípulo de Cristo na prática e como entramos em um relacionamento de discipulado com o Senhor?
O rei
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Os discípulos são chamados de acordo com a graça compassiva do Senhor. Nenhuma pessoa pode se candidatar ao posto de discípulo de Cristo.
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A resposta do discípulo não é uma mera confissão oral de fé, mas um ato irrestrito de obediência e fidelidade. Isso ocorre porque Jesus chama não como mestre sábio e exemplo de vida, porém como Cristo, o Filho de Deus. Isso é o que significa trilhar o caminho estreito.
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Os discípulos devem responder com fé. Os que foram chamados devem abandonar os seus pecados e seguir, confiando nele como Salvador e Senhor.
Preferir o cristianismo em detrimento das outras religiões, viver uma vida moralmente irrepreensível ou nutrir comportamentos saudáveis - nada disso faz de você um cristão. Cristãos são pessoas que têm fé verdadeira em Cristo e que a demonstram ao depositar nele suas esperanças, seus temores e sua vida de forma plena.
O reino
1. O arrependimento é condição indispensável para um discípulo. Arrependimento envolve reconhecimento da natureza pecaminosa que nos afasta do Deus santo – mudança de perspectiva. Tristeza absoluta pelos pecados cometidos e por nossa incapacidade de viver no mundo criado por Deus - mudança de coração. Finalmente, disposição sincera de abandonar a vida de crimes e viver de acordo com a lei de Deus – mudança de propósito. Contudo, devemos afirmar que o arrependimento não é uma obra meritória, mas uma reação interna.
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O discípulo faz discípulos. O cristianismo não é para solitários, egoístas e individualistas, é, entretanto, para peregrinos que trilham juntos pelo caminho estreito que conduz à vida eterna. Na chamada do discípulo é preciso seguir o caminho e guiando outros - é preciso ser amado e amar, perdoar e ser perdoado, servir e ser servido. Fazemos tudo isso, quando ajudamos outras pessoas a seguir Jesus ao longo da vida.
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A importância do discipulado fiel para o crescimento saudável. Os crentes não devem ouvir qualquer indivíduo, mesmo que aparentemente seja um seguidor do rei. O critério de avaliação não pode ser subjetivo, mas direto, extraído das Escrituras.
Conclusão
As Escrituras não trazem apenas o alerta de Jesus que estudamos aqui; elas funcionam como um espelho, cheio de exemplos daqueles que, lamentavelmente, enganaram a si mesmos. Quando nos conscientizamos de que nossa existência é uma travessia breve em direção à eternidade — onde, por fim, compareceremos diante do tribunal de Cristo —, o autoexame deixa de ser algo opcional e torna- se uma urgência vital. Não queremos ser aqueles que apenas proclamam o Seu nome diante dos homens, mas aqueles que, pela graça e na obediência, são profundamente conhecidos pelo Rei.
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