O Rei e os relacionamentos
Mateus 7.1 — Não julguem, para que vocês não sejam julgados. 2Pois com o critério com que vocês julgarem vocês serão julgados; e com a medida com que vocês tiverem medido vocês também serão medidos. 3 — Por que você vê o cisco no olho do seu irmão, mas não repara na trave que está no seu próprio? 4Ou como você dirá a seu irmão: “Deixe que eu tire o cisco do seu olho”, quando você tem uma trave no seu próprio? 5Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu olho e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão. 6 — Não deem aos cães o que é santo, nem joguem as suas pérolas diante dos porcos, para que estes não as pisem com os pés e aqueles, voltando-se, não estraçalhem vocês. 7 — Peçam e lhes será dado; busquem e acharão; batam, e a porta será aberta para vocês. 8Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, a porta será aberta. 9Ou quem de vocês, se o filho pedir pão, lhe dará uma pedra? 10Ou, se pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 11Ora, se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem? 12 — Portanto, tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles; porque esta é a Lei e os Profetas.
O capítulo sete de Mateus marca o início da última seção do Sermão do Monte, e não é difícil detectar sua conexão com a seção anterior.
No sexto capítulo, Jesus instruiu o cristão sobre como viver neste mundo, focando principalmente em seu relacionamento com o Pai celestial: o perigo da idolatria, do mundanismo e da busca excessiva pelas coisas terrenas.
Jesus, contudo, reconhece que as exigências apresentadas até este ponto podem gerar um resultado perigoso nos crentes: o desenvolvimento de um espírito de julgamento hipócrita. Seu intuito, portanto, é prevenir os crentes quanto à forma de lidar com esses efeitos. As grandes demandas feitas aos seguidores de Cristo, na verdade, devem levá-los a reconhecer sua completa inadequação e, assim, a buscar a oração. Por fim, a regra de ouro resume o ensino: “tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles”. Esta deve ser a regra central para todos os relacionamentos. Jesus estava, na verdade, indicando que, se houver qualquer dificuldade no relacionamento com o próximo, este é o princípio a ser aplicado para guiar o comportamento. No entanto, por que é tão desafiador aplicar a simples “Regra de Ouro”?
O Rei e o comportamento dos seus súditos
O Rei lida com os relacionamentos de seus seguidores com seus semelhantes, da mesma maneira que ele regulou, anteriormente, a devoção pessoal a Deus (Mt 6.1-18) e os interesses particulares (Mt 6.19-34).
O perigo do julgamento – 7.1-6.
Mateus 7.1 — Não julguem, para que vocês não sejam julgados.
A declaração de Jesus na passagem, com frequência, tem provocado alguma confusão. O que ele queria dizer com essa afirmação? Será que o crente está proibido de fazer qualquer tipo de juízo?
Dentro do próprio contexto encontramos alguns bons indícios de uma explicação satisfatória. No versículo 6, Jesus afirma: “Não deem aos cães o que é santo, nem joguem as suas pérolas diante dos porcos...”. Avançando um pouco mais no texto, no versículo 15, ele disse: “Cuidado com os falsos profetas, que se apresentam a vocês disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes”.
Como alguém pode colocar em prática o que Jesus orientou sem exercer qualquer juízo? Como saber quem são os cães e os porcos sem fazer nenhum julgamento? Como os crentes podem tomar cuidado com os falsos profetas sem fazer uma avaliação crítica desses indivíduos? Portanto, Jesus não estava ensinando que não devemos fazer avaliações ou aferições, antes, preocupava-se com o tipo de julgamento que poderíamos fazer.
Podemos resumir o ensino de Jesus em três aspectos: (1) O perigo de fazer julgamentos com uma atitude de justiça própria e com sentimento de superioridade. (2) Tomar os próprios conceitos e os transformar em princípios normativos. (3) Fazer um julgamento sem os dados completos da situação. Não é correto proferir qualquer juízo sem antes ter plena consciência de todos os fatos.
A seguir Jesus alista dois resultados do julgamento temerário:
2Pois com o critério com que vocês julgarem vocês serão julgados; e com a medida com que vocês tiverem medido vocês também serão medidos.
Os críticos podem se tornar hipersensíveis a crítica de outros.
As pessoas que se tornam extremamente minuciosas no exame dos outros, com frequência, ficam espantados quando as pessoas fazem o mesmo com elas. Não gostam das críticas feitas contra eles, mas parecem jamais poder lembrar- se disso quando criticam os outros.
3 — Por que você vê o cisco no olho do seu irmão, mas não repara na trave que está no seu próprio? 4Ou como você dirá a seu irmão: “Deixe que eu tire o cisco do seu olho”, quando você tem uma trave no seu próprio? 5Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu olho e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão
Jesus não diz que é errado ajudar o irmão a tirar um cisco do olho, mas que é errado a pessoa com uma "trave" no olho tentar apontar os erros do outro. Na comunidade dos discípulos de Jesus, a censura crítica não tem serventia. Mas quando um irmão, com espírito manso e de autojulgamento, tira a trave de seu olho, ainda tem a responsabilidade de ajudar o irmão a tirar o cisco de seu olho.
6 — Não deem aos cães o que é santo, nem joguem as suas pérolas diante dos porcos, para que estes não as pisem com os pés e aqueles, voltando-se, não estraçalhem vocês.
A declaração final de Jesus, abre um parêntese importante. Se ele tivesse encerrado o assunto no versículo anterior, os crentes seriam levados a assumir uma posição tremendamente perigosa. Eles teriam tanto cuidado para não julgar erroneamente seus semelhantes que não exerceriam qualquer tipo de avaliação ou ponderação. Se isso acontecesse não haveria qualquer disciplina na igreja, os lobos estariam soltos no meio das ovelhas, os cães se alimentariam livremente e os porcos destruiriam qualquer edificação. A vida cristã na igreja seria caótica.
Como podemos conciliar os dois conceitos? A resposta é que se por um lado ele recomendou aos crentes não serem demasiadamente críticos, por outro lado, ele não recomendou que eles jamais fizessem qualquer tipo de julgamento.
Em resumo, é responsabilidade de cada pessoa admitir e tratar suas próprias falhas e auxiliar o próximo na correção de seus desvios. Essa assistência deve ser prestada de maneira amorosa, focada na edificação e não no julgamento condenatório. Essa é uma tarefa muito complicada, por isso precisamos estar sempre em oração.
A necessidade da oração – 7.7-11.
7 — Peçam e lhes será dado; busquem e acharão; batam, e a porta será aberta para vocês. 8Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, a porta será aberta.
Uma das características mais marcantes do ensino de Jesus a respeito da oração é a certeza de que ela será ouvida. No entanto, essa certeza não se destina a fins egocêntricos, mas visa à glória de Deus, alinhando-se aos propósitos do Rei e de seu Reino. Conforme delineado no Sermão do Monte, virtudes como justiça, sinceridade, humildade, pureza e amor são exigidas dos seguidores de Cristo; a promessa agora é que tais qualidades lhes serão concedidas mediante a busca em oração. Assim, as dádivas supremas propostas no sermão estão acessíveis a todos que demonstram persistência ao “pedir”, “buscar” e “bater”.
9Ou quem de vocês, se o filho pedir pão, lhe dará uma pedra? 10Ou, se pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 11Ora, se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem?
Um novo argumento é apresentado: embora pressuponha a inclinação humana ao pecado e ao egocentrismo em vez de uma centralidade em Deus — o que afeta todas as suas ações —, Ele reconhece que os seres humanos não são totalmente desprovidos de bondade em suas atitudes práticas. Se pessoas imperfeitas são capazes de oferecer boas dádivas aos seus filhos, quanto mais o Pai celestial, a própria essência da bondade, concederá bençãos aos que a recorrerem a ele?
Portanto, o que está envolvido nessa promessa é que qualquer coisa que o crente peça que for proveitosa para o crescimento no discipulado e na vida cristã, qualquer coisa que nos aproxime de Deus que expanda nossa vida e que nos faça progredir espiritualmente, Deus nos dará.
A regra de ouro – 7.12.
12 — Portanto, tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles; porque esta é a Lei e os Profetas.
O termo "portanto" associa a passagem aos versículos 1 a 11, indicando que, uma vez que Deus concede dádivas generosas, os seguidores de Jesus têm o dever de viver suas vidas por essa regra como uma expressão de gratidão.
Esta formulação estabelece uma máxima que é extremamente poderosa, permitindo a resolução de inúmeros dilemas morais sem a necessidade de multiplicar interpretações da Lei. Longe de ser arbitrária ou sem sustentação racional, como ocorre no humanismo radical, essa diretriz, no ensinamento de Jesus, encontra sua lógica fundamental na conexão com a verdade revelada contida na "Lei e nos Profetas".
É essencial compreender que este versículo transcende uma visão utilitarista do tipo "ser honesto vale a pena". Devemos tratar os outros como desejamos ser tratados não apenas pela expectativa de reciprocidade, mas fundamentalmente porque tal comportamento representa o propósito central da Lei e dos Profetas.
Tratando com os relacionamentos.
Não somente o ensino de Jesus, mas todos os grandes manuais de princípios éticos, de moralidade, relações sociais, bem como sobre todos os assuntos que tratam do problema dos relacionamentos neste mundo, podem ser resumidos através desta regra de ouro. Contudo, no cotidiano, as pessoas não conseguem colocar em prática este preceito simples. Isso nos leva à questão crucial: por que as pessoas não são capazes de observar uma determinação tão simples?
Por que existem invejas, fofocas ou qualquer outra coisa que prejudica mortalmente as pessoas? A resposta é teológica e profundamente bíblica: por causa do pecado.
Em resultado da queda, as pessoas estão inclinadas para o pecado. Assim sendo, não basta dizer: “faça isso!”. A primeira declaração do evangelho é que o ser humano é uma criatura pecaminosa e pervertida. O Homem é um ser de tal modo limitado e governado pelo mal que não é capaz de cumprir um ensinamento simples. Paulo chegou ao ponto de afirmar:
Romanos 8.7 Porque a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeita à lei de Deus, nem mesmo pode estar.
A lei é uma expressão da pessoa e do caráter de Deus, e da santa vontade. Mas o homem não a aprecia, pois, de maneira que lhe é natural, com suas atitudes, atos e desejos ele odeia a Deus.
A superação deste dilema está ligada diretamente a Deus. Conforme ensinado, o maior mandamento é o amor irrestrito a Deus — “Amar a Deus de todo coração, alma e entendimento” (Mt 22.37) —, seguido pelo amor ao próximo, “como a ti mesmo” (Mt 22.39). A sequência é crucial: a correção de todo relacionamento é impossível sem que Deus ocupe o lugar de primazia. O amor genuíno ao próximo é contingente ao amor a Deus.
Fomos criados por Deus e para seu propósito, e somente uma correta relação com ele nos permite operar devidamente. Ao contemplarmos a verdade de Deus e a nossa posição diante d'Ele, tomamos consciência de que ele não nos trata segundo nossa justiça ou merecimento. Se a retidão e a verdade divinas fossem aplicadas em estrita consonância, seríamos irremediavelmente condenados; todavia, a glória reside em Cristo Jesus, que nos trata de acordo com a incomparável graça.
Quando o evangelho da graça nos transforma, então, começamos a nos relacionar com as pessoas para o bem delas.
O evangelho nos torna humildes diante dos outros, mostrando que somos pecadores salvos unicamente pela graça. Mas também nos dá coragem diante dos outros, afirmando que somos amados e respeitados pelos único que realmente importa.
Experimentando o evangelho nos relacionamentos
O evangelho molda a forma como concebemos os relacionamentos.
● O Rei
- 1 - Encare os relacionamentos como uma jornada de crescimento espiritual que nos torna parecidos com Jesus. Reconheça que uma das finalidades dos relacionamentos é a ajuda mútua para superar pecados e defeitos e caminhar em direção à nova identidade que Deus está criando em nós.
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2 - Os relacionamentos tem o poder de revelar os nossos maiores defeitos, por outro lado, nos oferecem a oportunidade de lidar com nossos pecados.
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3 - Reconheça o egocentrismo. De acordo com a Bíblia, a natureza essencial do pecado reside em vivermos para nós mesmos – Não vivemos para Deus ou para as outras pessoas. Para tratar o egocentrismo, não pense menos de si mesmo, nem mais de si mesmo, mas pense menos em si mesmo. Tirar o foco de você e colocar o foco no evangelho de Cristo.
● O reino
1 - Conceda aos outros o direito de chamar a sua atenção para a necessidade de transformação. Não devemos minimizar a decepção de enxergar os defeitos uns dos outros.
2 - A graça de Deus no evangelho molda a maneira como encaramos os relacionamentos. O evangelho nos transforma porque o afirma que a nossa identidade não está fundamentada em nós mesmos. Somente depois de refletir no grande amor de Deus estendido a pecadores perdidos, podemos fazer o mesmo por outras pessoas.
3 - Servir ao outro de forma sacrificial e abnegada. A ação do Espírito Santo em nosso interior torna o evangelho real e enfraquece o coração egocêntrico. Procure servir ao outro em vez de ser servido e você encontrará o verdadeiro propósito. Isso acontece porque os relacionamentos foram criados por Deus para refletir seu amor abnegado e seu ato de serviço sacrificial manifesto em Jesus.
Conclusão
O capítulo 7 de Mateus, a seção final do Sermão do Monte, estabelece princípios cruciais para os seguidores de Cristo, alertando contra o perigo do julgamento hipócrita e incentivando a busca constante em oração. O ponto culminante é a “Regra de Ouro” (Mt 7.12), que resume toda a Lei e os Profetas como a máxima central dos relacionamentos. Contudo, a incapacidade humana de viver por esse preceito simples reside na natureza pecaminosa e egocêntrica. A superação desse dilema é estritamente teológica, exigindo que Deus tenha primazia (o maior mandamento) e que a graça do Evangelho transforme o indivíduo, capacitando-o a se relacionar com o próximo de forma abnegada e edificadora, refletindo o amor sacrificial de Cristo.
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