A Graça do Rei




Mateus 9.9 Quando Jesus saiu dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e lhe disse: — Siga-me! Ele se levantou e o seguiu. 10Estando Jesus à mesa, na casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e os seus discípulos. 11Vendo isto, os fariseus perguntavam aos discípulos de Jesus: — Por que o Mestre de vocês come com os publicanos e pecadores? 12Mas Jesus, ouvindo, disse: — Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. 13Vão e aprendam o que significa: “Quero misericórdia, e não sacrifício.” Pois não vim chamar justos, e sim pecadores.

Matthew Henry - pregador puritano - aponta: “Todos somos naturalmente avessos a Ti, ó Deus; manda-nos seguir-Te; atrai-nos por Tua palavra poderosa, e nós correremos atrás de Ti. Fale pela palavra do Espírito aos nossos corações, o mundo não pode nos segurar, Satanás não pode impedir nosso caminho, nós nos levantaremos e te seguiremos.”

Quando o Rei chamou Mateus, graciosamente, uma transformação salvadora ocorreu em sua alma, operada por meio da palavra. Logo em seguida, ele se empenhou em conduzir seus antigos companheiros para que também pudessem ouvir a Cristo. Sabendo por experiência própria o alcance da graça de Cristo, ele trabalhou para a restauração deles.

Todos aqueles que são verdadeiramente atraídos a Cristo passam a carregar o desejo sincero de que outras pessoas também sejam conduzidas ao Rei. Por outro lado, aqueles que imaginam que suas almas estão livres de enfermidades não buscarão o Médico espiritual. Esse foi o erro dos fariseus, que desprezaram a Cristo por se considerarem saudáveis, enquanto os humildes publicanos e pecadores reconheceram que necessitavam de sua graça amorosa

O chamado do Evangelho atua como um convite ao arrependimento, estimulando a transformação de nossos corações e a renovação de nossas atitudes. Se a humanidade não estivesse em pecado, a vinda de Cristo perderia o sentido.

Você se dispõe a reconhecer que a soberana graça divina o conduziu à conversão, ou mantém ainda algum traço de conduta legalista e farisaica em sua vida? Cabe a nós examinar e identificar nossas próprias debilidades, aprendendo a praticar as orientações do nosso Rei.


O amigo dos pecadores

Jesus era conhecido pelo título nada monárquico de “amigo de pecadores e publicanos”. Contudo, era entre os “doentes” que ele encontrava a matéria prima de seu ministério.


O chamado de Mateus - 9.9

Mateus 9.9 Quando Jesus saiu dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e lhe disse:— Siga-me! Ele se levantou e o seguiu.

O cenário desse acontecimento provavelmente se localiza nos arredores de Cafarnaum. Mateus encontrava-se em seu posto de trabalho na "coletoria", uma guarita alfandegária responsável pela arrecadação de tributos na divisa entre as terras de Filipe e as de Herodes Antipas. Nesse contexto, após evidenciar seu poder divino para absolver pecados (9. 1-8), Jesus estende o chamado a alguém rejeitado pela sociedade devido à sua profissão.

Existe uma clara semelhança entre a situação de Mateus e a do homem paralítico; a menção à própria conversão nesse trecho serve justamente para traçar esse paralelo. Bastou uma única ordem imperativa para despertar sua transformação e prontidão em obedecer: "Segue-me". Agindo da mesma forma que o paralítico, Mateus cumpriu prontamente a instrução recebida: levantou-se imediatamente e começou a segui-lo. Ao narrar essa atitude, ele evidencia o impacto desse chamado soberano e irresistível em sua vida. Embora estivesse antes concentrado em uma atividade voltada para a retenção e cobrança de tributos, ele foi vocacionado para uma missão fundamentada essencialmente no ato de doar. Adicionalmente, a experiência acumulada no funcionalismo público assegurava seu domínio tanto do aramaico quanto do grego, além de uma rigorosa precisão no registro de dados, competências que o tornaram apto para documentar as informações e, posteriormente, redigir o seu evangelho.

Ao se identificar simplesmente como "um homem chamado Mateus", o autor ressalta um princípio fundamental: a jornada do discipulado tem início quando o Rei direciona seu olhar de maneira estritamente pessoal a cada um de seus seguidores. A essência dessa caminhada reside no fato de que o Rei demonstra um interesse genuíno e individual pelos seus servos, convocando-os ativamente para construir uma comunhão íntima e pessoal com Ele. Um terrível engano de algumas pessoas é tentar separar o ministério e o chamado para servir outras pessoas, da salvação em Cristo. O chamado de Mateus comprova que aqueles que estão em um novo relacionamento com Jesus, também estão em um novo relacionamento com as pessoas. Mark Dever afirma: “Senão trabalhamos para fazer discípulos, é possível que não sejamos discípulos dele”.


O questionamento dos religiosos - 9.10-11

Mateus 9.10 Estando Jesus à mesa, na casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e os seus discípulos. 11Vendo isto, os fariseus perguntavam aos discípulos de Jesus: — Por que o Mestre de vocês come com os publicanos e pecadores?

Essa proximidade motivou o questionamento por parte dos críticos fariseus. Embora soubesse que compartilhar refeições com essas pessoas traria o risco de impureza cerimonial, a intenção de Jesus era fazer o bem e trazer restauração àqueles que necessitavam. Evidentemente, a atitude de Jesus, de forma alguma, representou sua concordância ou aceitação com a conduta das pessoas. O Rei estava pregando a mudança de comportamento exigida dos seus seguidores.

Com o desejo natural de compartilhar sua nova realidade, o recém- convertido reuniu seus antigos amigos para que também ouvissem os ensinamentos do Salvador. Essa ação serve como modelo prático: é nosso dever empregar todos os meios lícitos ao nosso alcance para aproximar outras pessoas da pregação da palavra. Numa era de cultura de cancelamento, polarização e elitismo a mensagem dessa passagem soa como um alerta desafiador.

A pergunta feita pelos líderes religiosos, direcionada aos seguidores de Jesus e não a ele diretamente, teve um tom nitidamente acusatório em vez de um desejo sincero de compreensão, reunindo de forma depreciativa "publicanos e pecadores" numa mesma categoria. O termo "pecadores" talvez fizesse referência à população em geral que não seguia estritamente os preceitos farisaicos. Contudo, a definição certamente incluía os que violavam publicamente os princípios morais da época — como as prostitutas e os marginalizados —, sendo rotulados como pecadores tanto devido às suas atividades quanto pelo seu comportamento.


O Rei adverte - 9.12-13

12Mas Jesus, ouvindo, disse: — Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. 13Vão e aprendam o que significa: “Quero misericórdia, e não sacrifício.” Pois não vim chamar justos, e sim pecadores.

Há uma clara conexão nestes versículos entre a ação de Jesus ao curar enfermidades e o seu agir para restaurar pecadores. Da mesma forma que os enfermos necessitam de cuidados médicos e foram curados, os pecadores careciam profundamente de perdão, restauração e compaixão, sendo da mesma forma alcançados por ele. Jesus não se aproximou dessas pessoas porque elas manifestaram alegria ao recebê-lo, mas sim pela condição de pecado em que se encontravam.

A realidade do pecado e a condição dos pecadores são elementos centrais e constantes na pregação e no ministério de Jesus. Ele jamais relativizou as suas consequências, nem negligenciou sua existência ou consentiu que a humanidade camuflasse suas transgressões. Pelo contrário, o pecado foi consistentemente apontado por Jesus como o principal e definitivo adversário do ser humano.

A incompreensão dos fariseus a respeito da missão de Cristo motivou a aplicação de Oséias 6.6 no versículo 13 (“Pois quero misericórdia, e não sacrifício; conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.”). No período do profeta Oséias, os indivíduos infiéis mantinham a rotina de rituais no templo, porém esvaziados de essência. Assim, ao direcionar essa passagem aos fariseus, Jesus apontou que eles não apenas falhavam em demonstrar empatia pelos “doentes” em detrimento do zelo ritualístico, mas que também se assemelhavam aos antigos apóstatas de Israel, pois sustentavam uma fachada de religiosidade enquanto abandonavam o real propósito divino, o que ficava evidente no modo como tratavam os pecadores.

A intenção de Jesus não era dividir os homens em dois grupos, mas sim desconstruir a concepção equivocada que se havia formulado sobre a identidade e a missão do Messias, revelando a perspectiva correta. A essência do seu ministério consolidou-se na manifestação da graça e na busca ativa por aqueles que estavam perdidos e imersos no pecado.

Charles Spurgeon descreve precisamente a atitude esperada dos seguidores do Rei: “Senhor, eu sou aquele que precisa do teu chamado, pois com certeza, se alguém tem necessidade de se arrepender, este sou eu. Chama-me com o teu chamado eficaz. Converte-me, e converter-me-ei”.


A graça do Rei

Efésios 1.3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo. 4Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. 5Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, 6para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado.

A graça pode, facilmente, ser mal compreendida. A graça tem dois aspectos: O primeiro deles é a graça elementar ou comum. Concedida à toda humanidade em geral. Essa graça opera para restringir os efeitos do pecado. Ela ameniza os desdobramentos da queda na vida dos indivíduos. Ela impõe limites morais ao comportamento das pessoas. Preserva a ordem da sociedade por meio de governos e instituições. Capacita homens e mulheres com criatividade nas artes e destreza nas ciências humanas e psicológicas.

Entretanto, ela não pode redimir os pecadores. Ainda, que possa gerar alguma consciência de pecado ou iluminação para a verdade de Deus, porém, sozinha não dirige os indivíduos para salvação eterna.

O segundo aspecto da graça - um elemento da mesma graça e não outra graça - é a graça singular ou especial. A graça salvadora estendida a todos os que foram eleitos e predestinados pelo Pai. É a obra irreversível e arrebatadora de Deus que liberta homens e mulheres da penalidade, do cativeiro e do poder da escravidão do pecado. Ela renova o coração dos pecadores e santifica os crentes por meio da habitação do Espírito Santo, por ordem do Pai e através do mérito de Jesus. A graça de Deus transforma o coração e torna a pessoa completamente disposta a confiar e obedecer a Deus.


Transformados pela graça

A Bíblia ensina que somos preservados na graça e que toda vida do crente é impulsionada pela graça.

Orei

  1. A graça é a vontade soberana de Deus agindo em favor dos pecadores. No núcleo da ideia da graça está o favor e o amor de Deus. É um atributo do caráter de Deus e é absolutamente de sua natureza agir graciosamente.

  2. A graça de Deus não é colocada à nossa disposição. Não possuímos a graça como se fosse uma substância. Não controlamos sua operação ou sua manifestação. Somos sujeitos à graça de Deus.

  3. Duas repercussões distintas da graça de Deus em nós:

(1) Somos salvos unicamente pela graça por meio da fé. O esforço humano não traz salvação. Nenhuma obra pode ser realizada para merecer a salvação.

(2) Somos salvos para boas obras. Muitas boas obras resultam da salvação autêntica. Elas são evidências conclusivas e definitivas da salvação genuína.

O reino

  1. A Graça pode transformar nosso coração, de modo que podemos agir com base na motivação correta.

    Quando Paulo desafia os crentes de corinto a ofertar ele diz:

    2 Coríntios 8.9 Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos.

    O apóstolo deseja que os crentes contribuam, mas que o façam sem que ele ordene. Em vez disso, ele aponta para a viva e marcante graça de Deus. Ele transporta a salvação de Cristo para o âmbito das contribuições e a maneira de lidar com o dinheiro, usando uma imagem poderosa para lembrar seus leitores sobre a graça de Deus. Essencialmente, Paulo volta os nossos olhos para a graça de Deus até nosso coração ser transformado em um coração generoso.

  2. Somos salvos pela graça e mantidos pela graça. A mesma graça que foi concedida para a salvação de Mateus, foi concedida, em igual proporção, para a sua vida. Os crentes são salvos pela graça e mantidos pela mesma graça. Não devemos supor que depois de salvos, chegou a vez de fazermos nossa parte - devemos rejeitar a visão truncada de isso e aquilo. A Bíblia ensina que tanto a graça, quanto a graça são essenciais na vida do salvo em Cristo.

Conclusão

A soberana graça de Cristo não apenas nos resgata do pecado, mas contraria a religiosidade vazia ao nos transformar em agentes ativos de sua misericórdia. Assim, ao reconhecermos nossa total dependência do Rei, somos impulsionados a viver não por méritos, mas pela graça transformadora que alcança vidas e as conduz à comunhão com ele.



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