O Rei prepara seus oficiais

 


Mateus 10.16— Eis que eu os envio como ovelhas para o meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. 17Tenham cuidado com os homens, porque eles os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas suas sinagogas. 18Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios. 19E, quando entregarem vocês, não se preocupem quanto a como ou o que irão falar, porque, naquela hora, lhes será concedido o que vocês dirão. 20Afinal, não são vocês que estão falando, mas o Espírito do Pai de vocês é quem fala por meio de vocês. 21 — Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai entregará o filho. Haverá filhos que se levantarão contra os seus pais e os matarão. 22Todos odiarão vocês por causa do meu nome; aquele, porém, que ficar firme até o fim, esse será salvo. 23Quando, porém, perseguirem vocês numa cidade, fujam para outra. Porque em verdade lhes digo que não terão percorrido as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem. 24— O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo está acima do seu senhor. 25Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo ser como o seu senhor. Se chamaram o dono da casa de Belzebu, quanto mais os membros da sua casa! 26— Portanto, não tenham medo deles. Pois não há nada encoberto que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido. 27O que lhes digo às escuras, repitam a plena luz; e o que é dito para vocês ao pé do ouvido, proclamem dos telhados. 28Não temam os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; pelo contrário, temam aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo. 29 — Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Entretanto, nenhum deles cairá no chão sem o consentimento do Pai de vocês. 30E, quanto a vocês, até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. 31Portanto, não temam! Vocês valem bem mais do que muitos pardais.

O Rei continua a pregar o seu sermão missionário aos seus oficiais mais próximos — aqueles a quem enviaria para dar prosseguimento à tarefa de proclamar a chegada do Reino.

Na passagem anterior, O Rei outorgou autoridade aos seus enviados, mas essa autoridade tem um preço. Com o intuito de preparar seus oficiais o rei aponta que o seguir e fazer a sua vontade exige um custo que precisamos calcular e abraçar, se realmente, desejamos ser seus discípulos.

A segunda parte do sermão missionário do Rei, aponta para as perseguições e hostilidades que adviram nos seus emissários, por outro lado, ressalta as promessas de cuidado amoroso e capacitação especial do Pai.

E nós, estamos dispostos a sofrer perseguições, ou mesmo a morte de nosso corpo em favor da causa do Rei e do seu Reino?


O custo do discipulado

Ser discípulo do Rei exige uma vida inteiramente dedicada a Ele e à sua missão.

Quem decide segui-Lo precisa estar pronto para enfrentar perseguições intensas, que podem vir de três frentes:

1 - A perseguição civil. 10.16-20

Mateus 10.16 — Eis que eu os envio como ovelhas para o meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas.

Nessa imagem, o próprio Pastor envia suas ovelhas para o meio dos lobos. Jesus deixou claro que seus discípulos enfrentariam um ambiente perigoso — e foi exatamente para lá que Ele os enviou. Curiosamente, ele inverte a ideia do capítulo anterior, onde olhava para a multidão e via "ovelhas sem pastor" (Mt 9.36).

A simplicidade sem sabedoria pode virar ingenuidade. Por isso, ao irem como ovelhas entre lobos, os discípulos devem agir com prudência, evitando conflitos desnecessários, mas mantendo a pureza — sem se deixarem levar pelo medo ou pela falsidade. O grande desafio ensinado por Jesus é justamente manter o equilíbrio entre esses dois lados.

Mesmo enviadas para o meio de lobos, as ovelhas podem caminhar sem medo, pois é Jesus quem as envia. A missão delas não é combater ou caçar os lobos, mas transformá-los por meio de sua mensagem, estando dispostas a suportar as marcas desse chamado.

17Tenham cuidado com os homens, porque eles os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas suas sinagogas. 18Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios.

Aqui, a perseguição mencionada vinha tanto dos líderes religiosos judeus quanto das autoridades civis. Enfrentar uma autoridade romana era algo ainda mais assustador para os cristãos da época do que comparecer ao conselho da sinagoga, já que essas autoridades possuíam um poder imenso e temido.

Os discípulos não seriam perseguidos por quem eram, mas por causa de Jesus. E era justamente através dessas situações difíceis que a mensagem alcançaria as autoridades e os gentios.

Mas, ao mesmo tempo em que Jesus alertava sobre os perigos, Ele deixava uma promessa de encorajamento: o próprio Espírito Santo falaria por meio deles na hora certa, para que não precisassem se afligir com o que dizer. Vale lembrar que essa promessa não serve de desculpa para a falta de preparo!

2 - A perseguição familiar. 10. 21-23

21 — Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai entregará o filho. Haverá filhos que se levantarão contra os seus pais e os matarão.

Como se não bastasse encarar a oposição das autoridades, os discípulos de Jesus também enfrentariam a rejeição e até a traição dentro de sua própria casa.

Quando o fanatismo se instala, até a relação entre irmãos e o amor entre pai e filho se perdem. Em tempos de crise espiritual,não podemos esperar consideração de quem não tem amor por Deus. Pode parecer absurdo pensar que familiares chegariam ao ponto de se voltarem uns contra os outros, mas a história confirma que o Rei não estava exagerando.

Não é segredo que as relações familiares - especialmente, entre crentes e incrédulos - podem ser bastante desgastante, porém, também não se deve confundir as perseguições previstas por Jesus com as dificuldades de relacionamento inerente aos vínculos familiares.

22Todos odiarão vocês por causa do meu nome; aquele, porém, que ficar firme até o fim, esse será salvo.

Jesus avisa que o ódio viria justamente por causa do Seu nome. Se a perseguição exigir a própria vida, nossa entrega a Cristo precisa ser firme a ponto de encararmos o sacrifício como uma possibilidade real. O verdadeiro discipulado envolve a entrega de quem somos; do contrário, não é discipulado de fato.

23Quando, porém, perseguirem vocês numa cidade, fujam para outra. Porque em verdade lhes digo que não terão percorrido as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem.

Os discípulos não deveriam usar a oposição para desistir e nem como pretexto para responder com violência. Quando a perseguição apertasse, o melhor a fazer era partir estrategicamente para a próxima cidade e continuar anunciando a mensagem. Afinal, o tempo é curto.

Não faz sentido tentar forçar as pessoas a aceitarem a mensagem do evangelho; o caminho é o convencimento gracioso, jamais a imposição ou a violência.

3 - A perseguição religiosa. 10.24-28

24 — O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo está acima do seu senhor. 25Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo ser como o seu senhor. Se chamaram o dono da casa de Belzebu, quanto mais os membros da sua casa!

O Rei faz questão de alertar seus seguidores para que não sejam apanhados de surpresa diante das hostilidades. Para quem decide trilhar o caminho do discipulado, a oposição não é um acidente de percurso, mas uma expectativa real. Essa declaração deixa claro como Jesus enxergava o Seu próprio ministério e a maneira como o Reino avançaria.

Charles Spurgeon bem observou: “Deus foi caluniado no Paraíso, e Cristo, no Calvário; como esperamos escapar? Em vez de desejarmos evitar tomar a cruz, estejamos contentes em suportar a desonra por causa de nosso Rei. Que seja a nossa ambição sermos como o nosso Mestre em todas as coisas.”

26— Portanto, não tenham medo deles. Pois não há nada encoberto que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido. 27O que lhes digo às escuras, repitam a plena luz; e o que é dito para vocês ao pé do ouvido, proclamem dos telhados.

Embora a obra do Reino na vida dos seguidores do Rei possa parecer invisível num primeiro momento, nada ficará oculto para sempre. A primeira razão para não temer os opositores é que a verdade virá à tona de qualquer forma — logo, a escolha mais sábia é proclamá-la com coragem e sem reservas desde já.

De certa maneira, o alcance público do ministério dos apóstolos deveria superar o do próprio Jesus durante Sua jornada terrena. Ele compartilhou ensinos em momentos de intimidade que eles só compreenderiam plenamente após a ressurreição, mas o chamado deles era trazer essa verdade à luz, ensinando a todos abertamente.

Muitas vezes, esse texto foi lido de forma isolada. O que está encoberto e precisa ser revelado é a própria mensagem do Evangelho — algo que nós, como crentes, fomos chamados a anunciar sem hesitação.

28Não temam os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; pelo contrário, temam aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.

A outra razão para não temermos os perseguidores é que o máximo que eles podem atingir é o nosso corpo — o que em nada se compara ao poder soberano de Deus. Por mais que o inimigo tente nos intimidar, só Deus tem a palavra final sobre a nossa alma e o nosso destino eterno. Quando tememos a Deus de verdade, o receio dos homens simplesmente se dissipa.

4 - A provisão na perseguição. 10.29-31

29 — Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Entretanto, nenhum deles cairá no chão sem o consentimento do Pai de vocês. 30E, quanto a vocês, até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. 31Portanto, não temam! Vocês valem bem mais do que muitos pardais.

Aqui temos um verdadeiro sermão contra a ansiedade e o medo. Como bem pontua D. A. Carson, o argumento é claro: “Se a providência de Deus é tão abrangente que nem mesmo um pardal cai do céu sem a Sua vontade, como não confiar que esse mesmo Deus estenderá Seu cuidado aos discípulos de Jesus?”

Naquela época, o pardal era o alimento dos mais pobres. O valor de dois deles era de apenas uma pequena moeda, uma fração irrisória do ganho diário de um trabalhador.

Alguns pensam que Deus se importa apenas com os grandes acontecimentos e se esquece dos pequenos detalhes. Mas Jesus nos mostra o oposto: é precisamente o cuidado de Deus com aquilo que parece insignificante que nos dá a certeza de que Ele conduz cada passo de nossas vidas.

E se formos chamados a entregar a vida por causa do Reino, isso não será o fim. Na lógica do Rei, é justamente quando perdemos a vida por amor a Ele que a encontramos de verdade.


A natureza do discipulado

Mateus 10.22Todos odiarão vocês por causa do meu nome; aquele, porém, que ficar firme até o fim, esse será salvo.

Jonas Madureira no livro “O Custo do Discipulado” explicou o que significa seguir a Cristo ao custo da própria vida.

Em primeiro lugar ele apontou que seguir Cristo é assumir um compromisso público:

Naquele tempo — e também hoje, associar-se a Jesus significava enfrentar uma reação quase sempre negativa, e que frequentemente começava em casa, na família, e poderia facilmente tornar-se uma oposição sistemática dos líderes religiosos, como os fariseus e escribas, por exemplo. Por isso, muitos evitavam identificar-se com Jesus e com seu ensino, pois poderiam ser rejeitados por seus próprios familiares e pela comunidade religiosa. Entretanto, para seguir Jesus, de acordo com os termos que ele estabelecera, era necessário sair do anonimato. Era preciso comprometer-se publicamente. Em outras palavras, não dava para seguir Jesus sem mostrar o rosto, sem assumir, diante de todos, seu compromisso com ele. Portanto, para seguir Jesus, é preciso sair das sombras, das trevas.

A seguir ele diz que a igreja é a comunidade dos que seguem Jesus nos termos de Jesus e com isso conecta as duas coisas: compromisso e igreja.

A verdadeira igreja não é uma multidão que simplesmente segue Jesus, mas a reunião de todos aqueles que seguem Jesus nos termos de Jesus, ou seja, é a assembleia daqueles que se recusam a seguir Jesus do próprio jeito, meramente como curiosos, retendo apenas o que lhes agrada e descartando tudo mais. Em suma, trata-se da reunião daqueles que seguem Jesus como Jesus quer ser seguido.

Em contraste flagrante com essa comunidade do compromisso estava a multidão que não tinha interesse em assumir riscos:

Na "grande multidão", estavam aqueles que queriam seguir Jesus segundo seus próprios termos, trata-se de nossa terrível mania de querer "ressignificar" conceitos que ofendem nosso amor-próprio. Ressignificamos com a finalidade única de favorecer objetivos pessoais.

Finalmente, o autor junta tudo e finaliza o conceito de discipulado do Rei:

Mas, então, Jesus colocou o machado na raiz do problema. Agora ele está confrontando aqueles que se escondem na nebulosidade da multidão, dizendo a eles que, se quiserem segui-lo de verdade, será necessário que saiam das sombras e o sigam segundo os termos que ele estabeleceu, e não segundo os termos que estabeleceram por si e para si mesmos. Assim, para seguir Jesus, é necessário evidenciar certo tipo de amor, um amor que requer a negação de si mesmo.


Assuma o discipulado

Mateus 10.25 Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo ser como o seu senhor. Se chamaram o dono da casa de Belzebu, quanto mais os membros da sua casa!

O evangelho de Mateus apresenta duas ênfases teológicas que devem guiar as nossas aplicações:

O Rei

1)Os seguidores do Rei não podem ser aventureiros, nominais ou individualistas.

2) O medo não pode servir de justificativa para o pecado ou para a omissão.

3) As perseguições estão restritas a Cristo e sua causa; não devemos confundir sofrimentos causados por nossa própria inabilidade com as perseguições do Reino.

4)O evangelho deve ser pregado com sabedoria, prudência, ousadia e coragem.

O Reino

1) A entrada e a permanência no Reino são confirmadas publicamente por meio do batismo e da ceia do Senhor.

2) A igreja é evangelística por natureza, pois reúne todos os que se comprometeram com o Rei e a sua causa.


Conclusão

Portanto, assumir o discipulado não é apenas uma decisão intelectual, mas uma mudança de vida. O custo é alto — a renúncia de si mesmo — mas o convite do Rei é inegociável. Não podemos ser apenas seguidores nominais e esporádicos do Rei, somos chamados a ser ovelhas que, mesmo em meio aos lobos, caminham com a segurança de que o Pastor as conhece, sustenta e conduz até o fim.

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