Alguns creem no Rei




Mateus 14.13 Jesus, ouvindo isto, retirou-se dali num barco para um lugar deserto, à parte. Ao saberem disso, as multidões vieram das cidades seguindo-o por terra. 14Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos. 15Ao cair da tarde, os discípulos se aproximaram de Jesus e disseram: — Este lugar é deserto, e já é tarde. Mande as multidões embora, para que, indo pelas aldeias, comprem para si o que comer. 16Jesus, porém, lhes disse: — Não precisam ir embora; deem vocês mesmos de comer a eles. 17Mas eles responderam: — Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes. 18Então Jesus disse: — Tragam esses pães e peixes aqui para mim. 19E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, pegando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos para o céu, os abençoou. Depois, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes deram às multidões. 20Todos comeram e se fartaram, e ainda recolheram doze cestos cheios dos pedaços que sobraram. 21E os que comeram eram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças. 22Logo a seguir, Jesus fez com que os discípulos entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado, enquanto ele despedia as multidões. 23E, tendo despedido as multidões, ele subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Ao cair da tarde, lá estava ele, só. 24Entretanto, o barco já estava longe, a uma boa distância da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário. 25De madrugada, Jesus foi até onde eles estavam, andando sobre o mar. 26Os discípulos, porém, vendo-o andar sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: — É um fantasma! E, tomados de medo, gritaram. 27Mas Jesus imediatamente lhes disse: — Coragem! Sou eu. Não tenham medo! 28Então Pedro disse: — Se é o Senhor mesmo, mande que eu vá até aí, andando sobre as águas. 29Jesus disse: — Venha! E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas e foi até Jesus. 30Reparando, porém, na força do vento, teve medo; e, começando a afundar, gritou: — Salve-me, Senhor! 31E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, o segurou e disse: — Homem de pequena fé, por que você duvidou? 32Subindo ambos para o barco, o vento cessou. 33E os que estavam no barco o adoraram, dizendo: — Verdadeiramente o senhor é o Filho de Deus! 34Estando já no outro lado, chegaram à terra de Genesaré. 35Quando as pessoas daquela terra o reconheceram, mandaram avisar em todos aqueles arredores e lhe trouxeram todos os enfermos. 36E pediam-lhe que ao menos pudessem tocar na borda da sua roupa. E todos os que tocaram nela ficaram curados.

O Rei foi rejeitado entre os seus amigos, familiares e conhecidos. Mesmo diante de manifestações de poder sobrenatural e de um conhecimento profundo, a depravação do coração humano e o preconceito falaram mais alto, impedindo as pessoas de crerem em Cristo. Isso não era novidade: o arauto do Rei, o profeta João Batista, já havia sido rejeitado pelas autoridades políticas da época, preso e decapitado em uma conspiração ardilosa. Naquele cenário, as mentiras e enganos pareceram prevalecer.

A partir de agora, contudo, o evangelista apresenta três episódios nos quais ressalta com clareza a divindade e a autoridade de Jesus. O Rei demonstra poder soberano sobre a criação — controlando alimentos, forças da natureza e enfermidades —, o que constitui credenciais definitivas e poderosas de sua plena divindade.

O objetivo central dessas narrativas é mostrar que os crentes devem crer em Cristo e depositar nele toda a sua confiança. Os seguidores de Jesus são chamados a manifestar uma fé profunda e verdadeira. Essa fé, contudo, não é cega nem irracional: possui um conteúdo factual e objetivo. Portanto, os crentes devem crer em Cristo estritamente conforme ele se revela nas Escrituras Sagradas.

Essa fé genuína deve estar fundamentada na pessoa e na obra de Cristo, ser provada pelas circunstâncias adversas e produzir frutos constantes que conduzam outras pessoas ao Senhor.

Como cultivar uma fé verdadeiramente firmada na pessoa e na obra de Cristo em meio às tempestades e incertezas da vida? De que maneira essas manifestações do poder soberano do Senhor sobre a criação nos desafiam a confiar plenamente em sua provisão e a servir ao próximo com humilde dependência e generosidade?


Três demonstrações de poder sobre a Criação

As credenciais divinas do Rei foram apresentadas em três episódios, cada um com sua própria ênfase: no primeiro, a fé redunda em obras; no segundo, a fé deve ser provada e redunda em adoração; no terceiro, a fé é uma dádiva de Deus e redunda em testemunho. Um perigo que deve ser descartado imediatamente é a interpretação e, consequentemente, a aplicação antropocêntrica. O autor

inspirado tem o propósito de apresentar o Rei e não de estabelecer o modus operandi de Deus.

1 - A multiplicação dos pães e peixes 14.13-21

O relato da alimentação das cinco mil pessoas é encontrado nos quatro evangelhos. Embora haja uma provável antecipação implícita do banquete messiânico, o texto foca principalmente a compaixão de Jesus e a responsabilidade dos discípulos de crer nele e ministrar às multidões.

13Jesus, ouvindo isto, retirou-se dali num barco para um lugar deserto, à parte. Ao saberem disso, as multidões vieram das cidades seguindo-o por terra. 14Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos.

O versículo 13 retoma a sequência dos versículos 1 e 2: ao ouvir sobre a reação de Herodes à sua pregação e aos seus milagres, Jesus decidiu retirar-se. Contudo, como em outras ocasiões, ele raramente conseguia escapar das multidões, mesmo quando se deslocava para outro lugar.

O evangelista Marcos aponta a necessidade de descanso (Marcos 6:31: “E ele lhes disse: — Venham repousar um pouco, à parte, num lugar deserto. Isto porque eles não tinham tempo nem para comer, visto serem muitos os que iam evinham.”). Esse repouso era indispensável, tanto para o próprio Jesus quanto para o pequeno grupo que o acompanhava. Jesus reconhecia a absoluta importância do descanso e da privacidade e buscava por elas; o uso sábio e discreto dessas oportunidades ainda é algo que muitos obreiros precisam aprender.

Os ministros, por causa da sua exposição constante, da natureza de seu ofício e da necessidade de sempre responder à altura, com frequência podem ficar desgastados; por isso, precisam aprender a nobreza do descanso e da solidão.

14Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos.

A multidão não queria deixá-lo descansar; estavam curiosos, ansiosos e necessitados e, por isso, o seguiram. Ao ver o povo, Jesus ficou comovido. Ele não ficou irado com a multidão nem demonstrou desapontamento por ter seu descanso interrompido, mas foi tomado por compaixão.

Spurgeon observou: “É um feliz sinal quando há uma vontade de ouvir a Palavra de Deus. Oh Senhor, envia-nos mais disso nestes dias de indiferença religiosa”.

15Ao cair da tarde, os discípulos se aproximaram de Jesus e disseram: — Este lugar é deserto, e já é tarde. Mande as multidões embora, para que, indo pelas aldeias, comprem para si o que comer.

A conversa entre Jesus e os discípulos é direta, embora bastante resumida em comparação com os registros dos outros evangelhos. Os discípulos tiveram uma reação puramente humana: quiseram evitar a dificuldade despedindo a multidão - o que não resolveria o problema. A resposta deles revela não apenas uma percepção limitada, mas também uma abordagem do problema que demonstra falta de compreensão e de fé.

Buscar um atalho para escapar de uma situação difícil costuma ser frustrante. Devemos encarar as dificuldades e os problemas da vida de frente e com firmeza, lembrando que as circunstâncias não podem alterar nossos princípios.

Ainda hoje, muitos cristãos limitam-se a deixar as multidões à própria sorte ou a influências incertas, esperando que sejam transformadas. É fundamental reconhecermos nossas limitações e o quanto estamos distantes de suprir as necessidades daqueles ao nosso redor, assim como é proveitoso confessar essa incapacidade com sinceridade ao Senhor. Porém, também é necessário atender aos anseios da multidão com a pregação fiel do evangelho.

16Jesus, porém, lhes disse: — Não precisam ir embora; deem vocês mesmos de comer a eles. 17Mas eles responderam: — Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.

O Rei desafia seus seguidores a tomarem uma atitude: eles mesmos deveriam alimentar aquela multidão. A ordem de Jesus parece contraditória; porém, aponta para a necessidade de confiança em Deus e em seu poder. O papel dos discípulos no milagre esteve limitado à organização e à distribuição do alimento para a multidão de cinco mil pessoas. Isso não significa, contudo, que eles tenham contribuído para a realização do milagre em si.

Carson adverte: “Os números "cinco" e "dois" são apenas detalhes exatos: esforços para explicá- los (e.g., como referindo-se ao Pentateuco e as duas tábuas da lei) são tão fantasiosos quanto afrescos cristãos transformando-se em símbolos eucarísticos nos quais o peixe é transformado em vinho!”

Os seguidores do Rei devem compreender que seu papel no serviço é fundamentalmente dependente de Jesus. Eles não podem fazer nada por si mesmos, pois dependem inteiramente de Cristo e do seu poder.

Ao refletir sobre essa passagem, Spurgeon declarou: “Verdadeiramente, o autor deste comentário muitas vezes se sentiu como se ele não tivesse nem pão nem peixe; e, ainda assim, por mais de quarenta anos, foi um garçom de bandeja cheia nos banquetes do nosso grande Rei”.

É um privilégio inegável poder servir ao Senhor com todos os nossos recursos — físicos, intelectuais, financeiros, emocionais, entre outros.

18Então Jesus disse: — Tragam esses pães e peixes aqui para mim. 19E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, pegando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos para o céu, os abençoou. Depois, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes deram às multidões.

Mateus omite diversos detalhes registrados nos demais evangelhos — como a relva verdejante e a organização das pessoas em grupos de cinquenta e cem —, contudo destaca que todos comeram e se fartaram. Apenas Jesus realiza a multiplicação dos pães e dos peixes: ele concede as ordens, rende graças e parte os pães. O ato de erguer os olhos ao céu, dar graças a Deus e partir o pão consistia no costume habitual de qualquer chefe de família judaico.

20Todos comeram e se fartaram, e ainda recolheram doze cestos cheios dos pedaços que sobraram.

Ninguém foi desamparado, recusado ou considerado incapaz; ninguém se retirou sem que estivesse plenamente satisfeito, tampouco necessitou de algo além do suprimento oferecido. Ninguém julgou o alimento inadequado, visto que todos tinham fome e comeram. Tampouco houve qualquer restrição: todos se fartaram. O Rei revela sua imensa generosidade ao prover o sustento de maneira abundante.

Deus pode suprir todas as nossas necessidades. Embora não seja o propósito essencial de Mateus, o objetivo do evangelista é destacar o poder do Rei sobre a criação — não podemos transformar essa passagem em uma doutrina, como se Deus sempre fosse multiplicar alimentos. Mesmo assim, o ensino das Escrituras é que Deus pode e tem prazer em sustentar o seu povo. Portanto, podemos confiar na provisão e no sustento constantes de Deus.

21E os que comeram eram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças.

Após a refeição, recolheram-se doze cestos cheios com as sobras, o que demonstra a inesgotável provisão do Senhor. Embora a contagem apontasse cerca de cinco mil homens — podendo chegar a quinze ou vinte mil pessoas ao considerar mulheres e crianças —, a presença dos doze cestos de sobras evidencia a melhor explicação para o milagre: a provisão do Messias é tão abundante que até mesmo o que sobra é plenamente suficiente para suprir todas as necessidades.

Esse resultado reforça que a generosidade de Cristo supera todas as expectativas: ao servirmos e suprirmos as necessidades alheias, nosso próprio sustento é multiplicado, havendo ainda mais fartura ao final do que no início.

O Rei providenciou tudo de que todos precisam para a salvação, santificação e vida eterna. A provisão do Senhor é suficiente para todo o mundo e eficiente para os eleitos de Deus. Não podemos nos conformar com as migalhas do pecado e da carne quando temos a provisão constante e generosa do Rei. Por outro lado, não precisamos reter os recursos que o Senhor nos concede, nem confiar em nossas próprias habilidades e nos bens materiais.

2 – Jesus anda sobre as águas 14.22-33

22Logo a seguir, Jesus fez com que os discípulos entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado, enquanto ele despedia as multidões. 23E, tendo despedido as multidões, ele subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Ao cair da tarde, lá estava ele, só. 24Entretanto, o barco já estava longe, a uma boa distância da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário.

Jesus insistiu — usando um termo forte que indica quase uma imposição — para que os discípulos entrassem no barco e fossem adiante dele, enquanto ele despedia a multidão que, aparentemente, não queria ir embora. Ele fez isso por dois motivos principais: queria um momento a sós para orar (v. 23) e desejava afastar seus discípulos daquela multidão para que eles pudessem descansar.

Assim que a multidão se dispersou, Jesus buscou o refrigério de que necessitava na oração. Ele subiu ao monte para ter comunhão a sós com o Pai, encontrando nessa intimidade seu verdadeiro descanso e deleite.

Enquanto Jesus orava no monte, os discípulos navegavam pelo mar da Galileia, onde ventos fortes sopram entre as montanhas e representam um perigo constante para pequenas embarcações, ameaçando levantá-las ou cobri-las com as ondas. Mesmo conhecendo esses perigos, os discípulos optaram por obedecer às orientações de Jesus.

Essa situação mostra que é necessário obedecer ao Rei em todas as circunstâncias. Uma característica marcante dos indivíduos de fé é sua prontidão em obedecer às ordens do Rei, mesmo em ocasiões aparentemente estranhas.

Ao olhar para este relato, precisamos evitar o erro de transformá-lo em uma simples promessa de livramento de todos os nossos problemas diários. A soberania de Deus governa tanto as tempestades quanto as calmarias para a sua própria glória e para o nosso bem. Mais do que nos oferecer conforto momentâneo nas aflições, essa passagem deseja nos conduzir ao entendimento mais profunda de quem Jesus é: o Filho de Deus encarnado, revestido de toda autoridade e majestade, que sustenta a nossa fé e nos convida a confiar inteiramente nele.

25De madrugada, Jesus foi até onde eles estavam, andando sobre o mar. 26Os discípulos, porém, vendo-o andar sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: — É um fantasma! E, tomados de medo, gritaram. 27Mas Jesus imediatamente lhes disse: — Coragem! Sou eu. Não tenham medo!

A aproximação de Jesus ao barco ocorreu de madrugada, entre as 3 e 6 horas da manhã. Ao vê-lo andar sobre o mar, os discípulos ficaram apavorados, pensando tratar-se de um fantasma — Mateus não menciona se já estavam aterrorizados antes, por causa da tempestade.

As palavras de Jesus — “Coragem!” e “Não tenham medo!” — ladeiam o motivo central para acalmá-los: “Sou eu”. Mais uma vez, encontramos Jesus revelando-se de forma velada, e essa revelação provará ser especialmente valiosa para os cristãos ao longo da história. Aqui temos a primorosa revelação da substância essencial da fé dos crentes, pois eles não confiam em Cristo por outro motivo a não ser pelo fato de que ele é Deus.

As ordens do Rei para “não ter medo” e ter coragem estavam profundamente fundamentadas na verdade de que Cristo é Deus; por isso, eles podiam confiar.

Reconhecemos nos discípulos a mesma facilidade que nós temos — sob a influência da carne — de fabricar neuroses e criar fantasmas. Afinal, costuma ser mais fácil confiar em artimanhas religiosas, filosóficas e humanas do que crer na pessoa de Cristo conforme revelada pelas Escrituras.

O que são as ideologias humanas senão tentativas mambembes de enxergar o Rei? O que são as construções religiosas senão fruto da cegueira da carne? Por que insistimos em querer ver Jesus sempre à nossa própria maneira?

28Então Pedro disse: — Se é o Senhor mesmo, mande que eu vá até aí, andando sobre as águas. 29Jesus disse: — Venha! E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas e foi até Jesus. 30Reparando, porém, na força do vento, teve medo; e, começando a afundar, gritou: — Salve-me, Senhor! 31E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, o segurou e disse: — Homem de pequena fé, por que você duvidou? 32Subindo ambos para o barco, o vento cessou.

Essa é a primeira de três cenas em que Pedro recebe um tratamento especial — uma primazia que revela a sua fraqueza de fé. Pedro serve tanto de bom quanto de mau exemplo. Que teste ousado ele sugeriu: "manda-me ir ter contigo por cima das águas!" O que Pedro pretendia ao andar sobre as águas? Certamente ele não tinha plena dimensão do que estava pedindo. No entanto, nós também colocamos o Senhor a testes semelhantes. Não dizemos, por vezes: "Se tu sempre me abençoaste, dá-me isso ou aquilo"? Nós também colocamos os pés na água e nos aventuramos onde nada, a não ser a graça soberana, pode nos sustentar.

Não fica claro que distância Pedro conseguiu percorrer, mas, ao comando de Jesus, ele de fato andou sobre as águas. Contudo, a sua percepção mudou ao reparar na força do vento. Ele teve medo e começou a afundar. O problema não foi ter perdido a fé em si mesma, mas o fato de que sua fé em Jesus — embora suficiente para fazê-lo sair do barco — não se mostrou forte o bastante para encarar a tempestade. Por essa razão, Jesus o chamou de "homem de pequena fé".

Parecia uma fé extraordinária quando Pedro caminhava sobre as águas, mas o vento forte logo expôs a sua fragilidade. Afinal, até que a fé seja devidamente provada, não temos como mensurar o seu verdadeiro alcance. As dúvidas não têm fundamento razoável: "por que você duvidou?" Embora houvesse motivos humanos para o receio, havia razões infinitamente maiores para a confiança.

33E os que estavam no barco o adoraram, dizendo: — Verdadeiramente o senhor é o Filho de Deus!

O auge da história não é o acalmar da tempestade, mas a confissão e adoração dos discípulos: “Verdadeiramente o senhor é o Filho de Deus!”. Toda a perícope gira em torno da necessidade de compreender a missão e a identidade do Rei. Os seus seguidores devem entender que estão diante do Deus vivo e verdadeiro. Jesus se apresenta como o Deus todo- poderoso do Antigo Testamento.

Essa é a primeira vez que Jesus é chamado pelos discípulos por seu título completo — um passo mais profundo de compreensão, ainda que envolto em certa limitação. É incerto o sentido exato que atribuíam ao termo “Filho de Deus” naquele momento, sendo pouco provável que já alcançassem a plenitude de seu significado ontológico, algo que só compreenderiam mais tarde.

Todos os milagres, as intervenções sobrenaturais de Deus, todo conhecimento teológico e qualquer devoção pessoal devem apontar para essa verdade: Jesus é o Rei prometido, o grande Eu Sou do Antigo Testamento, o cumprimento de todas as promessas. Se qualquer coisa, por mais valiosa e impressionante que seja, não tiver esse propósito essencial e exclusivo, não passa de ilusão e perda de tempo.

3 - Muitos doentes são curados 14.34-36

34Estando já no outro lado, chegaram à terra de Genesaré. 35Quando as pessoas daquela terra o reconheceram, mandaram avisar em todos aqueles arredores e lhe trouxeram todos os enfermos. 36E pediam-lhe que ao menos pudessem tocar na borda da sua roupa. E todos os que tocaram nela ficaram curados.

Tão logo a embarcação livrou-se da tempestade, alcançou o porto desejado. Genesaré era uma fértil planície ao noroeste do lago. Ali, o autor inspirado relata mais cenas extraordinárias: os doentes foram plenamente curados pelo Rei. Assim, Jesus demonstra seu poder soberano sobre as enfermidades, apresentando mais uma impressionante credencial divina.

O reconhecimento imediato de Jesus pela multidão evidencia a grande alcance de seu ministério; mais uma vez, o testemunho das pessoas atraiu e guiou a multidão. Muitos se tornaram anunciadores zelosos do seu poder, enviando mensagens por toda aquela região. Aquelas pessoas estavam verdadeiramente empenhadas.

As pessoas ficavam satisfeitas simplesmente em tocar na borda da sua roupa, e até mesmo esse grau de fé resultava em cura completa. Esse breve parágrafo destaca três pontos principais: (1) enfatiza novamente a grande extensão do

ministério público de Jesus; (2) mostra que o seu ministério alcançava a todos, ainda que os discípulos tivessem um acesso mais próximo e ensino particular; e (3) revela o contraste com grupos mais rigorosos, como os fariseus e os essênios, que consideravam abominável o contato físico nas multidões por medo de contaminação cerimonial. A despreocupação de Jesus com essas regras prepara o terreno para o confronto sobre o que é puro e impuro (15.1-20). Afinal, ele mesmo jamais poderia ser contaminado; ao contrário, é ele quem purifica os outros.

Esse é um dos pontos que evidenciam o equívoco da teologia católico-romana ao defender a impecabilidade e a pureza perpétua de Maria. A teologia reformada sustenta que a santificação do ventre de Maria não decorreu de uma perfeição intrínseca ou de uma preservação imaculada dela mesma, mas, sim, da ação soberana e eficaz do Espírito Santo na encarnação (Lc 1.35). A santidade de Cristo jamais dependeu da pureza do recipiente humano; pelo contrário, é a sua majestade divina que purifica o impuro, sem jamais ser contaminada por ele. Jesus não precisou de uma mãe isenta do pecado original para ser o Cordeiro imaculado; foi o seu próprio poder purificador que santificou o ventre de Maria para gerar o Filho de Deus. Como serva fiel e participante da raça humana, Maria necessitou do mesmo Salvador e da mesma graça redentora que todos os demais eleitos. Portanto, ao rejeitarmos a doutrina da impecabilidade mariana, glorificamos a Cristo, cuja graça soberana purifica o pecador e transforma a nossa fragilidade em instrumento para a manifestação da sua glória.


A fé verdadeira redunda em adoração verdadeira

Mateus 14.33 E os que estavam no barco o adoraram, dizendo: — Verdadeiramente o senhor é o Filho de Deus!

Após as fantásticas demonstrações da divindade do Rei, os seus discípulos, cheios de fé, fazem uma declaração absolutamente impressionante: Verdadeiramente o senhor é o Filho de Deus! A fé dos discípulos recebeu um aditivo importante. Certamente, eles já criam em Cristo, porém a fé deles precisava passar por esse crescimento.

O que é fé? Hebreus 11.1 Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem. Esse versículo define a fé em duas expressões paralelas e quase idênticas. Todos os elementos cruciais que representam a doutrina bíblica de fé estão contidos nesse versículo – e nos exemplos de fé no restante do capítulo 11 de Hebreus.

● ...a certeza de coisas que se esperam. A fé é uma convicção concedida por Deus sobre a verdade das promessas da Bíblia e a confiabilidade de Cristo. Dizendo de outra forma, uma confiança sobrenatural naquele que fez as promessas, e não a esperança indefinida ou incerta por algo que pode vir a acontecer num futuro vago. É a confiança presente de uma realidade futura.

Em primeiro lugar, essa fé certa precisa ser a obra de Deus em nós. Mesmo que a verdade do evangelho seja confirmada por muitas evidências, a natureza humana tende a rejeitar a verdade sobre Cristo. Portanto, sem a obra do Espírito em nós, jamais conseguimos crer no sentido descrito por esse versículo.

Em segundo lugar, é uma convicção sobrenatural — uma certeza sólida, inabalável e contrária à natureza humana. Bebemos água da torneira acreditando que ela é potável. A capacidade para esse tipo de fé é intrínseca à natureza humana, porém, essa não é a fé que o texto descreve. A fé natural se apoia num objeto que não é necessariamente confiável - a água pode estar poluída.

A consequência clara de tudo isso é que a fé é uma dádiva de Deus. Se fosse uma mera decisão humana, ela não seria nenhuma certeza. Poderia ser uma decisão ruim. Se a fé fosse uma mera função da mente humana, ela não mereceria confiança. A mente pode facilmente ser enganada, equivocada, iludida ou mal-informada. A fé verdadeira, porém, é uma certeza implantada divinamente que se eleva acima do funcionamento natural da mente humana.

● ...a convicção de fatos que não se veem. Essa definição paralela e complementar leva a mesma verdade ainda mais longe. As pessoas de fé estão preparadas para viver sua crença. Elas têm tanta certeza das promessas e das bênçãos ainda futuras que se comportam como se tais promessas já tivessem sido realizadas.

Em resumo, a fé é uma convicção firme e sobrenatural que domina o comportamento do verdadeiro cristão. As pessoas de fé obedecem, adoram, perseveram, sacrificam e trabalham pela fé. Suas obras não são esforços carnais, mas o produto inevitável de uma convicção sólida de que as coisas que não podem ver são, mesmo assim, reais. Obedecem porque estão comprometidos com o objeto da sua fé.

John MacArthur explica:

A teologia sistemática costuma reconhecer três elementos de fé: conhecimento (notitia), consentimento (assensus) e confiança (fiducia). A fé verdadeira, portanto, envolve toda a pessoa mente, emoções e vontade. A mente abraça o conhecimento, um reconhecimento e uma compreensão da verdade de que Cristo salva; já o coração consente, acrescenta a confiança e a afirmação segura a salvação de Cristo é aplicável à sua própria alma; e, por fim, a vontade responde com confiança, com o compromisso pessoal e a

apropriação de Cristo como única esperança para a salvação eterna. [...] Mas todos os três elementos de fé estão claramente contidos no nosso texto (Hebreus 11.1-3): conhecimento: "Pela fé entendemos" (v. 3); consentimento: "fé é a certeza daquilo que esperamos" (v. 1); e confiança: "fé é a prova das coisas que não vemos" (v. 1).


A fé redunda em obras

Mateus 14.33 E os que estavam no barco o adoraram, dizendo: — Verdadeiramente o senhor é o Filho de Deus! 34Estando já no outro lado, chegaram à terra de Genesaré. 35Quando as pessoas daquela terra o reconheceram, mandaram avisar em todos aqueles arredores e lhe trouxeram todos os enfermos.

As duas ênfases teológicas de Mateus:

O rei

● A fé é um dom de Deus concedido por sua graça soberana aos eleitos. Nesse sentido, ela não é a contrapartida humana da salvação — como se Deus fornecesse a salvação e o homem contribuísse com a fé.

● A fé redunda inevitavelmente em obediência. Fé e incredulidade são disposições do coração, mas que necessariamente se refletem no comportamento. O estado do nosso coração será inevitavelmente revelado por seus frutos.

● A fé verdadeira não se resume ao mero conhecimento sobre Deus: é a busca por Ele. Na verdade, buscar a Deus é frequentemente usado como sinônimo de fé nas Escrituras. Em vez de tentar conquistar o favor divino, a fé procura o próprio Deus — para buscá-lo e encontrá-lo em Cristo, desejá-lo e, por fim, satisfazer-se nele.

O Reino

●  O povo de Deus é a comunidade daqueles que têm fé em Deus — não dos que são perfeitos. Somos o povo que depositou sua confiança em Deus por meio do Rei; contudo, somos, ao mesmo tempo, o povo que está sendo continuamente santificado pelo Espírito Santo.

●  A fé se expressa de maneira mais clara nos compromissos comunitários. Quando servimos e somos servidos uns pelos outros em uma relação pactual, evidenciamos a fé que professamos ter. Pela fé somos batizados, pela fé edificamos uns aos outros e pela fé nos alimentamos da refeição do Senhor.

● O povo de Deus é marcado por uma fé transformadora. Somos membros uns dos outros e assumimos o compromisso pactual de cuidado e serviço mútuo. Aceitamos e praticamos a disciplina e o discipulado, compartilhando a oração, a evangelização e a missão da igreja.


Conclusão

Para cultivar uma fé verdadeira em meio às tempestades da vida, precisamos contemplar a soberania e a divindade de Cristo conforme reveladas nas Escrituras. Reconhecendo a nossa total incapacidade humana, somos convidados a descansar na sua provisão generosa e constante. Assim, capacitados por essa certeza, somos chamados a servir ao próximo com humilde dependência, glorificando a Deus por meio de obras frutíferas e de um testemunho comunitário fiel.


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